Todos pela Saúde

Todos pela Saúde

Nessa última semana, entre os dias 25 e 27 de setembro, ocorreu em São Paulo o evento Todos Juntos Contra o Câncer, em que tive a oportunidade de participar como ouvinte em algumas palestras e painéis, e confesso que fiquei impressionado com o número de participantes.

Entre conferencistas renovados e outros nem tanto, as salas, mesmo as menores contavam, em alguns casos com fila, à espera de que alguém saísse para que outro ocupasse o lugar. Os temas das palestras eram sempre ligados ao cuidado com o câncer.

Já mencionei em texto anterior que, especialmente nos grandes centros urbanos como São Paulo, onde se encontram 20 hospitais referenciados e com acreditação internacional (conforme matéria do jornal Folha de São Paulo – Revista da Folha 16 a 22 de setembro p.30 a 38), é possível encontrar ajuda e cuidado com a doença com qualidade, e incluo nesses casos, sem a menor sombra de dúvidas, os pacientes do SUS.

Imagine que em meio ao grande número de participantes da área da saúde como Médicos, Enfermeiros, Fisioterapeutas, Assistentes Sociais, Nutrólogos, Nutricionistas, Psicólogos, especialistas em TI e Advogados, sim, Advogados. É preciso lembrar que aos pacientes oncológicos há uma série de direitos legais que podem beneficiar, ou no mínimo tentar minimizar o sofrimento no âmbito da legislação. Estou falando de possibilidades como liberação de FGTS e PIS, prioridade em processos na justiça e outros projetos que sequer foram votados ainda, mas que fazem parte de uma pauta.

Um dos painéis que mais me comoveram foi comandada pela Dra. Paula Torres do Ceará. O trabalho dela como Oncologista se destaca sob um ponto de vista bastante diferente do que vemos por aqui, nos grandes centros de tratamento oncológico em que os pacientes vão em busca do tratamento. No caso dela, é ela quem vai atrás dos pacientes em vilarejos distantes, distantes de verdade, a horas e horas de viagem de carro, barco e o que mais for necessário para alcançar seu objetivo.

Nesses vilarejos encontra possíveis pacientes que já apresentam pequenos sintomas e os orienta no sentido de buscar ajuda, melhor dizendo, pega pela mão e leva para o tratamento. A esses pacientes, em minha opinião, é uma questão que antecede o cuidado, pois para muitos destes os sintomas passam a fazer parte do cotidiano tornando-se familiares e sem receber a ajuda e tratamento necessários.

Esse painel teve como convidado o Dr. Dráuzio Varella que também participou de parte da expedição dela pelo sertão do Ceará, cujo sol parece ser exclusivo para o habitante, tal é o calor que faz. No vídeo publicado no canal do Dr. Dráuzio é possível ver, entender e compreender uma pequena parte da grandeza e necessidade do trabalho dela.

Também mexeram comigo outras histórias e a pesquisa realizada pelo instituto Oncoguia, segundo a qual quando alguém adoece impacta em toda a família. O impacto se dá de diversas maneiras, por exemplo, financeiramente, seja por quê o doente ainda em idade produtiva com a doença deixa de produzir e ganhar, seja pelos custos de medicamentos, ou pelo fato de que o doente precisa e necessita de cuidados de outro e com isso acaba por impedir o outro de produzir, ganhar e ainda quando não representa vários desses fatores combinados.

Dos mais diversos painéis que assisti, sem deixar de considerar a necessidade e importância de nenhum deles, o que está por trás de cada um é o Cuidado pelo ser humano.

Quando a discussão se dá na ponta pelo lado do cuidador, com todas as possibilidades e dificuldades que possam se apresentar, está se falando do cuidado com o ser que se apresenta em carência de cuidados, isto é, o paciente.

Cuidado, cura e saúde

Esse é o ponto deste texto. Somos, de acordo com Heidegger (1889-1976), essencialmente, desde o momento em que somos lançados no mundo, cuidado. Lembremos, pois o ser humano é lançado à própria sorte de desde seus momentos iniciais dependentes do cuidado – cuidado de si e do outro.

O ser humano é existência, epistemologicamente falando ek-sistere significa: movimento de abertura dentro para fora, circunscrito a um estado e lugar, e com uma dinâmica de contínua estruturação e troca, isto é, move-se em seu existir em movimento de constante abertura no mundo levando-se em conta o momento existencial circunscrito àquele momento.

O termo cuidado, que em termos atuais nos levam a pensar muito mais na evitação dos perigos do mundo, compartilha com outro vocábulo de origem latina grande importância, especialmente ao se pensar na questão da saúde, refiro-me ao termo cura. Cura, assim pensando, tem mais a ver com o ser em si, enquanto que cuidado relaciona-se com o ser no mundo em suas realizações e facticidade.

O que quero de modo objetivo nesse texto é convidar a quem que seja o leitor a refletir que se somos em essência dependentes do cuidado de nós para nós mesmos, do cuidado do outro para conosco e de nós para o outro, uma vez que estamos todos em relação no mundo e com o mundo, somos abertura, mas também podemos ser o encerramento ou fechamento dessa abertura de possibilidades. Nesse sentido, enquanto estamos abertos para as possibilidades encontramos no cuidado a cura, ou no inverso, isto é, fechados às possibilidades o distanciamento dela e a manutenção do adoecimento.

Estima-se que atualmente, conforme o Instituto Oncoguia, biênio 2018/2019 são cerca de 600.000 novos casos de câncer no Brasil, em 2010 eram registrados cerca de 480.000, portanto o número é crescente. Dos tipos mais comuns encontrados em mulheres estão mama, intestino, colo de útero, pulmão e tireoide; enquanto que em homens estão próstata, pulmão, intestino, estômago e cavidade oral.

São mais de 200 doenças que respondem ao nome genérico de câncer, mas o que de fato é preciso levar em consideração, seja pelo de fato de ser portador de algum tipo ou por estar em tratamento ou não, é o simples fato de ter por si e desenvolver o autocuidado.

Todos pela cura é assim, todos pela saúde e na medida com que você se cuida você estará também se juntando a essa multidão pela saúde.

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas.

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