“Sendo” durante a pandemia.

“Sendo” durante a pandemia.

Nos últimos dias tenho experimentado em mim a sensação de alienação em relação às tantas notícias repetidas relacionadas ao Covid-19. Se nos permitirmos, somos de tal forma inundados com tantas informações que se torna difícil formar uma compreensão lógica, mínima e sensata para realizar o básico do cotidiano e superar esse período. Então decidi por não assistir aos jornais e nem mesmo ouvir rádio ou olhar as manchetes pela internet.

Ultrapassei a marca de um mês praticamente sem sair de casa, as poucas saídas que fiz foram para consulta ou exame médico. Felizmente não estou tendo a necessidade de frequentar o supermercado, a feira livre ou a padaria, e isso me dá a possibilidade de me manter o mais escondido possível desse tal vírus que pode vir de carona em qualquer coisa, até na roupa que se usou para ir a qualquer desses lugares.

Em contrapartida, tenho feito o possível para ocupar o meu tempo, em parte de modo produtivo e em parte não produtivo; sim, vez ou outra, jogo paciência. Usei as semanas iniciais para uma certificação profissional que pode ser bom quando tudo isso passar, estudo um pouco, faço alguma leitura e atendimentos na clínica psicológica que, aliás, tem sido bastante demandada.

É exatamente a esse respeito que quero tentar pensar e expor meu raciocínio. Digo, o que será que está acontecendo que as demandas da saúde mental têm sido tão demandadas?

Minha visão, com base na Filosofia Fenomenológica Existencial, é a de que essa tal psicologia tem a função básica de contribuir para que o indivíduo em seu ser e estar seja ou tenha o restabelecimento da sua liberdade de existir, de ser em seu modo mais autêntico e até inautêntico, por que não.

De certo modo parte-se do princípio de que somos livres, como diria Sartre “estamos condenados a sermos livres” para ser e estar do modo que melhor convir, isto é, seja de modo autêntico ou não, desde que seja como seu desejo e querer.

Distanciamento social

Desde o início de março 2020, especialmente, depois de a OMS ter declarado que o Corona Vírus se tornara pandemia – isto é, que o vírus já estava presente em todos os continentes e com disseminação sustentada -, muitos países, incluindo o Brasil, optaram por solicitar que seus habitantes, inicialmente de modo não obrigatório, se colocassem em distanciamento social.

O objetivo do distanciamento social é simplesmente a redução da velocidade do contágio, de modo que o sistema de saúde, seja ele público ou privado, se prepare para receber os doentes. Por ser uma espécie de pneumonia, afeta diretamente o sistema respiratório e em muitos dos casos os pacientes são, obrigatoriamente, levados ao uso de equipamentos de respiração ou ventilação artificial.

A simples solicitação de distanciamento social não necessariamente era seguida, em muitos locais percebia-se como férias antecipadas, e assim o que se viu na prática foi o de muitos governos, nas várias esferas, por meio da força dos atos administrativos a declararem medidas de isolamento permitindo que apenas os serviços essenciais pudessem desenvolver suas atividades de trabalho.

Aqui entra um aspecto importante a ser considerado, pois ao declarar medidas de isolamento, embora de modo geral não impedisse o cidadão de sair de sua casa, o que se está fazendo é a retirada do direito de sair, ou seja, em última análise é uma restrição à liberdade.

Pode-se até, sendo consciencioso, aceitar o fato de que tal restrição visa senão a proteção, no entanto, a sensação que fica é a da restrição. É como ao realizar uma sugestão de que você não deva pensar em algo, por exemplo, não pense em limão, não pense que o gosto azedo do limão esteja invadindo a sua boca; é quase impossível não pensar no limão e para quem é mais sugestionável sentir o gosto limão invadindo as papilas gustativas.

Não bastante, ao ser colocado em casa privado da liberdade de realizar a vida cotidiana, há o bombardeio de informações de que o vírus mata e ainda que sua taxa de letalidade seja menor em relação a outros vírus de mesmo tipo, a informação que precisa ficar é que ele mata. Do contrário, se não houver o medo, dificilmente se conseguiria o objetivo de manter a população em casa e, dentro do possível, com distanciamento interpessoal.

Aqui, a seguir destaco alguns fenômenos clínicos.

O medo e a disposição para o medo

Tenho percebido, pelos atendimentos diversos advindos de pessoas, em sua maioria desassistidas de serviços de saúde mental e que tem procurado por ajuda através da Liga de Psicologia, que todo esse processo de privação da liberdade e distanciamento social tem contribuído em muito para o agravamento da situação da saúde mental nesse grupo de pessoas.

Uma das leituras possíveis desse fenômeno, cuja visão representa a minha leitura, é a de que diante do fato de ser obrigado a se distanciar do seu cotidiano, da sua vontade de seguir a vida em seu modo de ser, sua vontade efetiva não é respeitada e, portanto, é como se esse ente não tivesse valor e por não ter valor não tem significado diante de si mesmo.

De certo modo, ao ser colocado em casa, quase sem aviso, sem se preparar para a situação, longe de suas atividades cotidianas, pode começar a experimentar o tempo de um modo diferente daquele experienciado e familiar, que por vezes não passa ou passa lentamente, como num filme de Lars von Trier, a essa experiencia por si só já seria a melhor definição do tédio ou, conforme Boss (1988, p17) uma “forma de neurose do futuro imediato”.

O fenômeno é bastante complexo pois se junta a uma série de outros e se mostra de diversos modos, evidenciando-se em tédio, vazio, desejo de morte e outros distúrbios funcionais como: cardíacos, gástricos, intestinais etc., conforme BOSS (1988).

A rotina cotidiana das atividades diversas e ininterruptas, o ruído comum das grandes cidades aliadas às drogas lícitas ou não, tornaram-se o abrigo capaz de ocultar todas as culpas, angústias e o tédio, e sem estas, provocadas pelo isolamento ou distanciamento social, chega-se ao estranhamento desse mundo, desse desabrigo.

Que lugar é esse que até a pouco era conhecido e me abrigava e que agora não reconheço, que não mais me abriga e me amedronta? Amedronta-me na possibilidade de não mais existir. Amedronta-me na impossibilidade de me realizar.

Esse estranho desabrigo que angustia e que poderia levar a novas possibilidades e caminhos, tem encontrado no distanciamento ou isolamento social o espaço ideal para cultivar a disposição afetiva do medo e assim alimentando-o o torna ainda maior. Nessa disposição afetiva, o mundo se torna ainda mais amedrontador que de fato o é.

Cabe aqui uma observação importante e ressaltar que “ANGST”, traduzida do alemão significa tanto angústia quanto medo, conforme nota do tradutor da obra Angústia, culpa e libertação (1988, p23).

Privação da liberdade e culpa

Conforme nota do tradutor da obra Angústia, culpa e libertação (1988, p26 em alemão “SCHULD” significa ao mesmo tempo dívida e culpa. Nesse sentido, a privação da liberdade e do não poder se realizar coloca esse indivíduo diante da culpa. Culpa existencial de não ter realizado aquilo a que se propôs, aquele “deveria”, que muitas vezes vêm ao encontro e que cobra por algo que deveria ter sido realizado.

Boss, M. (1988, p. 26) chama atenção ao fato de que “cada angústia humana tem um de que, do qual ela tem medo e um pelo que, pelo qual ela teme. Cada culpa tem o que ela “deve”, e um credor ao qual está devendo.” Assim, o que a angústia teme não é senão a possibilidade de não mais estar aí, de não mais existir, por meio de qualquer ataque lesivo à existência; enquanto, que a culpa se refere a um dever à própria existência – ao si mesmo.

A superação do medo

Segundo BOSS (1988), nenhuma barreira ou obstáculo é intransponível, mas exige sempre coragem para se enfrentar. Onde há a presença da angústia há a necessidade da coragem. Assim para a superação de qualquer obstáculo.

Imagine uma corrida com obstáculos. Se o atleta simplesmente entrar no circuito e correr de tal modo destemido a ponto de ignorar os obstáculos, poderá, ao ignorar o tamanho real do obstáculo, tropeçar nele. Algo ainda pior poderá ocorrer se o atleta temendo o tamanho dos obstáculos evitar e assim fugir do desafio, pois desse modo não conseguirá de modo algum superá-los.

Em ambos os casos mencionados acima, ora por ignorar as características do obstáculo, ora por torná-los grandes demais, se tornaram igualmente insuperáveis. No entanto, o enfrentamento da angústia e do medo, apoiando-se na confiança e na possibilidade de superação, possibilitam a superação.

Não há outra possibilidade se não o “sendo” quero dizer sendo a cada dia de acordo com as suas possibilidades mais próprias.

Pandemia – Culpa – Liberdade – Angústia – Medo

Referências:

BOSS, M. Angústia, Culpa e Libertação. São Paulo, Ed. Livraria duas Cidades, 4ª Edição 1988. Tradução de Barbara Spanoudis

Meddard Boss, psiquiatra suíço, criador da Daseinsanalyse com base na obra Ser e Tempo.

Heidegger, M. (2009). Ser e tempo. Tradução de Marcia de Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Editora Vozes. Bragança Paulista: Editora São Francisco.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenologia. 3. ed. Petropolis: Vozes, 1997.

Boletim especial do COE – Atualização de avaliação risco.pdf acessado em 22/04/2010, no endereço: https://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2020/April/06/2020-04-06—BE7—Boletim-Especial-do-COE—Atualizacao-da-Avaliacao-de-Risco.pdf

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas como o aconselhamento em transição de carreira.

Este post tem 5 comentários

  1. Maria Alice Aguiar

    This your text is very very good. Congratulations

  2. Julio Souza (o noivo)

    Ótimo texto, reflexão extremamente pertinente e esclarecedora. Obrigado, Tatá!

    1. Psicólogo Altair Oliveira

      Oi Júlio,
      Obrigado pelo carinho.

  3. Alice Carta

    Gostei! Alice Carta

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