Sabotagem, boicote?

Sabotagem, boicote?

Desde minha última postagem, recebi por parte de leitores do blog dúvidas questionando-me a respeito de boicote ou melhor dizendo de auto boicote ou auto sabotagem. Então resolvi escrever esse texto falando um pouco a esse respeito.

Antes de entrar no objetivo direto proposto é preciso ilustrar um pouco mais a respeito da compreensão fenomenológica e dizer que, diferentemente de outras teorias que levam em consideração a consciência, o consciente e o inconsciente e que, por vezes, conteúdos e atos são colocados sob uma conta do inconsciente como se este fosse uma outra entidade e não fizesse parte do ente; a consciência é assim para fora para a percepção de tudo à nossa volta, como uma clareira onde os sentidos se desvelam.

Na fenomenologia interroga-se pela intenção do ser. Ainda que o ente tenha, de modo fático, agido dessa ou daquela maneira, o ponto em questão é com que intenção agiu desse ou daquele modo.

Ao silenciar e permitir o desvelar poder-se-á encontrar a resposta, isto é, a intenção contida no ato, e ficará claro que não existe boicote, e sim uma intenção e muito provavelmente uma intenção positiva.

Tentarei ilustrar esse ponto de vista.

Van Den Berg, em O Paciente Psiquiátrico, ilustra muito bem essa situação ao contar o caso de um operário em que, após machucar-se e fraturar gravemente a perna, é impedido de trabalhar. Após o período de tratamento e ser considerado por seus médicos recuperado e pronto para reaver sua função na fábrica, passa a protestar, que ainda está mancando e que ainda sente dores e, portanto, não poderia retornar ao trabalho.

Ao investigar as condições antecedentes ao acidente se soube que suas relações com os colegas eram difíceis e reclamava muito do trabalho. No relato do caso o autor mencionou que, ao acidentar-se, o operário saiu não somente de suas atribuições, mas também de suas dificuldades. Houve sim uma fratura que doía, mas também o aliviava em seus conflitos. Sua cura, isto é, a restauração física, não o livrava de suas condições difíceis na fábrica e, portanto, seu trauma precisava continuar através de suas dores e que o impedissem de retornar ao trabalho.

De imediato, ao examinarmos um determinado objeto ou situação, qualquer que seja, vemos apenas uma face, a face visível. Mas essa face visível está ao mesmo tempo em que se desvela, se mostrando, também está ocultando ou velando outras faces, como no exemplo do operário.

Sem conhecer muito bem a situação poder-se-ia dizer que o operário estaria se sabotando ou sabotando o tratamento, mas considerando a intenção de que o trauma o protegeria de retornar à fábrica, não podemos dizer que houve boicote ou sabotagem, e sim a intenção de evitar o conflito com os seus colegas e o trabalho do qual não gostava de fazer.

Se você refletiu, pensou em seus objetivos e definiu suas resoluções para o próximo período, seja para a semana, mês ou o ano inteiro e sempre encontra meios de não os realizar pode estar na hora de pedir ajuda profissional e se perceber de que modo está criando armadilhas.

As suas descobertas vão te surpreender!

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas.

Deixe uma resposta

Chris Ivory Jersey 
×
Olá,
Posso ajudar com alguma informação?