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Recidiva II – 2020

Recidiva II – 2020

Logo na primeira semana, lá estava eu, pronto para realizar a primeira sessão de quimioterapia, dessa vez não era o protocolo completo, apenas o de manutenção.

Para comprovar que estávamos no caminho certo o marcador tumoral, exame realizado naquele dia pela manhã, demonstrava estar em queda, em janeiro marcava 80, em seguida no exame realizado em fevereiro o marcador apontava 61, um dos mais baixos desde que iniciei o controle.

Nas semanas seguintes continuamos com as sessões de quimioterapia e com o protocolo parcial, no entanto, estranhamente o marcador começou a subir, embora ainda não significasse um grande problema, mas apresentava-se em ascensão.

Cabe um parêntese, estima-se que por até mais de seis meses, não se note o efeito do tratamento radioterápico e no meu caso, vale lembrar, realizei o tratamento em meados de agosto de 2019, para irradiar um ponto específico.

2020 O ano para ser lembrado

Desde as primeiras semanas do ano havia notícias vindas, de início da China, e aos poucos foram tomando a Europa. Um vírus bastante letal foi descoberto em meados de novembro e rapidamente, já no início do ano, a cidade de Wuhan estava completamente fechada em termos de acessos externos, ou seja, ninguém entrava ou saía saía daquele local.

Na sequência, países da Europa, cujos turistas, haviam passado pela China registravam os primeiros pacientes. Alguns países foram muito abalados pelas contaminações e os sistemas de saúde chegaram próximos, para não dizer que não entraram em colapso.

O problema desse vírus, batizado de COVID-19, Corona Vírus Disease 2019, é que seu modo de contaminação é bastante rápido, mesmo que sua letalidade não fosse tão alta quanto outros vírus do mesmo tipo Corona, sua forma de transmissão, por ser mais rápido o torna até mais letal que seus anteriores.

Em algumas poucas semanas ou apenas alguns dias as coisas se modificavam de tal forma que seria difícil supor que tais efeitos fossem possíveis, refiro-me ao fato de ter países inteiros com fronteiras aéreas, terrestres, enfim fechadas. Ninguém entra e ninguém sai!

Se na Europa o inverno, supostamente atuava como aliado do novo vírus, nos trópicos as informações se multiplicavam entre reais ou não, e, dentre outras coisas dizia-se que por estarmos no verão o vírus poderia não chegar com a mesma intensidade, letalidade e ritmo de contaminações.

Para enfrentar o vírus iniciava-se a construção de hospitais de campanha. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o estádio do Pacaembu, o Anhembi, dentre outros locais se tornaram grandes hospitais específicos para o enfrentamento do Covid-19, tudo isso com o objetivo de impedir que o sistema de saúde não viesse a colapsar, como visto em outros locais.

Estranhamente o vírus ataca muito fortemente o sistema respiratório e, em muitos casos, os pacientes são levados à intubação, isto é, o sistema respiratório é auxiliado e realizado por meio de equipamentos externos fazendo a função dos pulmões.

Poucos locais estavam de fato prontos para situação de tratamento e enfrentamento ao vírus, em termos de estrutura física, de equipamentos respiradores e até nos detalhes, isto é, EPIs (equipamentos de proteção individual). A coisa se tornou tão maluca que houve situações em que, supõe-se, a China, sim, o mesmo local de origem do vírus, não tinha equipamentos em suas linhas de produção em quantidades suficientes para fornecer ao mundo e, chegou a ter sobrepreço ou em outras palavras, leilão de preços e quem pagasse mais levava.

Pandemia

Após a ONU declarar haver ou reconhecer uma pandemia, países inteiros fechados, rapidamente, as fronteiras estaduais também iam se fechando. Assim em meados de março muitas cidades brasileiras estavam tão vazias que eram quase irreconhecíveis.

A pandemia pedia medidas de enfrentamento e cada um propunha a sua solução, supostamente, com base naquilo que a ciência oferecia ou não. A quarentena proposta inicialmente falava em 40 dias. Ao todo foram quase 7 meses de isolamento parcial da população e somente após estes 7 meses as coisas começam a voltar ao ritmo próximo da realidade conhecida.

Câncer e boletos não respeitam distanciamento social

As brincadeiras como são de se esperar surgiram em boa quantidade. Uma delas dizia que os boletos não fazem distanciamento social, aliás, em muitos casos eles até não chegaram. Não chegaram por suas vias tradicionais. Se antes os correios e entregadores faziam sua parte realizando a entrega (água, luz, energia elétrica), agora cada consumidor precisava dar um jeito de retirar em modo digital.

Igualmente, os marcadores tumorais também não fizeram distanciamento social. Em toda essa confusão de um lado o ideal era – fuja das aglomerações e locais de risco, fique em casa e de outro, o que fazer?

Sem perder o foco, em início de junho em mais um conjunto de exames notou-se que o marcador já estava em 513, crescendo à galope, especialmente ao considerar que em janeiro ou fevereiro estava abaixo de 100. E com isso reiniciamos as sessões de quimioterapia com o protocolo FOLFIRINOX pleno com suas três drogas.

Após seis sessões do protocolo pleno e mais uma sessão de exames de imagens e, mais uma vez registrou-se o crescimento de um ponto, dessa vez, no fígado. Para a equipe médica nada muito preocupante, mas cabia, novamente que se verificasse a possibilidade de novo tratamento específico para irradiar esse ponto.

Integração da equipe médica

Na consulta médica de rotina em que normalmente tenho coleta de sangue para exames clínicos, consulta médica e avaliação para quimioterapia com a posterior aplicação dos quimioterápicos. Após a consulta o médico que me acompanha contatou a responsável, a mesma médica que me atendeu e foi responsável pelo meu tratamento radioterápico anterior, ele explicou a situação e naquele momento já deixamos a consulta de avaliação para o dia seguinte.

Com isso parte do caminho já estava percorrido. Ambos se falaram e tomaram pé da situação. Diante de tudo a consulta de avaliação foi mais eficiente, ao invés de precisar de novos exames os últimos já serviram para orientar o tratamento e, na semana seguinte, com a autorização do convênio médico já iniciamos a preparação do molde (uma espécie de vovô conforto – bebê conforto para tiozinho).

Que bom ter acesso a alta tecnologia. O que mencionei do molde e, de fato se parece com o bebê conforto, é um molde cujo objetivo é manter o paciente o mais imobilizado possível durante a aplicação do tratamento. Especialmente por ser um órgão mole, o fígado, a receber a aplicação da radioterapia essa imobilização é ainda mais importante.

Por ser um órgão mole mesmo contendo a respiração ele tem algum movimento e, portanto, durante a aplicação o raio pode não tocar o ponto do tumor. Para corrigir essa situação se faz necessário que a área seja aumentada e assim ter certeza de que o ponto seja de fato irradiado, mesmo tocando outras áreas próximas.

Nas sessões de aplicação os técnicos avaliam a cada sessão e, para ser mais efetivo, considerando que o órgão se movimenta e sai do foco do raio, chegou-se à conclusão de que seriam necessárias quatro sessões ao invés das três inicialmente propostas.

Durante a aplicação pode se perceber alguns efeitos secundários como enjoos e outras sensações. De imediato não tive nenhum, exceto, na última sessão em que notava algum cansaço.

Em minhas costas na região à esquerda é possível sentir diferença na pele, provavelmente, um leve queimado com a radioterapia e do outro lado o que seria normal.

Nos dias seguintes, no entanto, além do cansaço, em um dos dias tive a sensação de que estava de ressaca. No dia seguinte a sensação de desconforto na região logo abaixo dos pulmões. Diante do quadro de dor e desconforto fui medicado e ao longo dos dias seguintes fui melhorando, embora, no fim de semana seguinte meu rosto apresentava sinais de inchaço juntamente com a sensação de que os órgãos não cabiam no abdômen.

O inchaço era perceptível também no peso que saiu dos aproximadamente 55 Kg para quase 60Kg, com o aumento na ingestão de água e o grande número de idas ao banheiro, algumas noites foram ao menos 4 idas para urinar, o peso foi retomando ao parâmetro atualmente normal. Embora persistisse leve desconforto, dentro do suportável, duas semanas depois do encerramento das sessões de tratamento ainda eram notadas.

Passados dois meses desde o encerramento das sessões. Ainda resta uma sensação de dor e desconforto na região afetada, e, ainda parte das minhas costas não consegue tocar ou ficar por algum tempo tocando outra superfície, o simples sentar-se com conforto e até mesmo dormir se tornam tarefas mais difíceis.

Em algumas noites, especialmente da madrugada para o amanhecer sinto-me como um frango de padaria girando no espeto em torno do meu eixo. O dia com a sensação de sono fica interminável ainda mais ao saber que em breve a noite chega novamente e com ela a repetição da situação.

Em algumas noites experimentei um analgésico destes que não dependem de prescrição e a noite foi menos dolorosa. Ao levar a situação aos médicos me foi sugerido utilizar alguns medicamentos específicos, porém, estes me causaram mais problemas que solução.

A fim de minimizar os problemas segui a receita e utilizei, de início um medicamento sob prescrição médica. Consegui dormir. Ótimo!

No dia seguinte enjoo e a sensação de que nada que comia descia. Enfim o vômito ajudou a limpar e, de certo modo, confirmava que tudo do que me alimentei estava preso. Que alivio!

Alterei o medicamento, prescrito e novamente a sensação de que nada era digerido.

Por um dia interrompi os medicamentos. Lidar com os problemas mais básicos pode ser mais simples que sofisticando com drogas para isso e aquilo.

Por fim, o que me proporcionou menor desconforto foi um tipo de analgésico em forma de adesivo, embora da mesma família dos prescritos anteriormente, seus efeitos secundários foram menores e, eventualmente, com o uso de um segundo analgésico consigo aumentar as horas dormidas ou ao menos diminuir o desconforto da dor, mas ainda distante do adequado.

Desde o tratamento radioterápico fizemos várias outras sessões de quimioterapia, protocolo parcial com apenas uma das drogas, o marcador tumoral caiu dos quase 1000 para pouco mais de 500.

Tenho notado outros efeitos. Não necessariamente consigo apontar os motivos.

Se passo um pouco dos horários de me alimentar sinto desconforto, após alimentar-me, também sinto algum desconforto. Por vezes à noite parece que algo está espremendo as paredes externas na região do abdome, é estranho definir.

Mesmo com alimentação próxima do normal, com reduções nas quantidades tive a sensação, especialmente de madrugada em algumas noites que meu problema é fome. Não que não houvesse me alimentado. Mas era como se o corpo estivesse precisando de energia.

Embora já houvesse experimentado alguns suplementos alimentares, sempre achei o gosto horrível, resolvi novamente experimentar alguma solução. Com a ajuda de uma amiga nutricionista passei a utilizar outro tipo diferente daqueles que já havia experimentado e passei a suplementar em horários mais específicos e a sensação de fome que mencionei não me incomodou mais.

Algumas poucas semanas se passaram ainda não noto melhora no peso, mas enfim, a melhora na qualidade da alimentação proporcionada pelo suplemento tem contribuído para aumentar o conforto ou ao menos diminuir os desconfortos.

A dor permanece, parece se iniciar na região mais afetada pelo tratamento radioterápico, o fígado, e se apresenta na região da coluna, na lombar. É um tanto estranho!  Mas foram apenas dois meses desde o tratamento e, portanto, pode ainda ser efeito secundário.

O novo ano já está batendo na porta.

Logo na primeira semana já tenho agendamentos para seguir com os tratamentos.

Tal como numa roda gigante, 2021 com seus 365 dias tende a oferecer novos altos e baixos, novas possibilidades em todas as áreas e, dentro do que me for possível, tentarei aproveitar os altos e melhorar os momentos de baixa.

É o que tem e felizmente, tenho!

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas como o aconselhamento em transição de carreira.

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