You are currently viewing Recidiva I – Março 2019

Recidiva I – Março 2019

Os termos, sejam eles criados pela medicina ou por qualquer outra disciplina que conhecemos como ciência, são, de certo modo, “frios” e nem sempre conseguem exprimir o que de fato se deseja ou deveria, assim é o título desse texto.

Conforme o dicionário de etimologia (pág. 79), Recidiva tem origem no latim – recidivo, que volta; também popularmente conhecido como recaída.

Após ter concluído o tratamento com as 18 sessões de quimioterapia em 26 outubro de 2018, supunha, ingenuamente, que o problema principal estivesse encerrado. E mesmo sabendo que só precisaria fazer os exames de controle e acompanhamento, as chances de recaída existem e, não são remotas.

Ingenuamente, pois as estatísticas apontam para os dados de estudo em que normalmente há o retorno. Mas na verdade não se deseja confrontar com a situação real e, principalmente, ter que recomeçar, não mais do ponto zero, mas de outro ponto igualmente difícil.

Em meus exames no fim do primeiro trimestre 19 houve alterações no exame clínico, em que o marcador tumoral demonstrou aumento no índice chamado CA-19 e, confirmado nas imagens da região, dessa vez o tumor apareceu na região posterior peritoneal entre os vasos mesentéricos.

Ao ver os resultados iniciais, mesmo que não fiquem dúvidas de que a situação está ali demonstrada pelas imagens e exame clínico, indica-se que se façam novos exames. Se por um lado abre-se uma chance de erros e leituras inadequadas, por outro dá um tempo para por as ideias em ordem e aceitar que precisa voltar ao tratamento. Enquanto não se obtém os resultados e se defina exatamente o que será feito, segue com as solicitações e encaminhamentos burocráticos para que se dê continuidade.

No início desse ano meu médico e equipe responsável pelo meu tratamento oncológico saiu do Hospital de minha preferência e, desde então, passou a me atender em clínica particular especializada em tratamento oncológico, de certo modo até melhor. De modo geral, gosto das equipes pequenas, suponho que normalmente tenham relações mais próximas e menos burocratizadas.

Diante da realidade que se estabelecia, optamos pelo protocolo que estava liberado pela ANS (Agência Nacional de Saúde) desde julho do ano anterior, cerca de dois meses depois de iniciado meu tratamento com o protocolo anterior.

O protocolo é composto pelas iniciais das principais drogas que o compõe, FOLFIRINOX (fluouracil, leucovorin, irinotecano e oxaliplatina). O protocolo propõe ainda que o tempo entre as sessões é de 14 (quatorze) dias.

Realizar o procedimento de infusão de quimioterapia é, sempre ou quase sempre, uma surpresa. Isso pelo fato de que a cada infusão normalmente se faz ajustes em relação a cada um dos medicamentos que compõe o protocolo. Esses ajustes também levam em conta dados do paciente como peso e altura, no caso do peso podendo variar de uma infusão para outra pelo ganho ou perda.

A rotina é a de sempre, consulta médica e, preenchidas as condições e que permitam a infusão, inicia-se o procedimento.

A clínica

A equipe da clínica, desde que estive no local pela primeira vez em consulta com o médico, tem se mostrado bastante presente e gentil. Com um pouco mais de conversa já foi possível saber que algumas das enfermeiras já conheciam a enfermeira que me atendia no Hospital, e isso vai tornando as relações mais próximas.

A surpresa também se dá pelos efeitos adversos ao esperado. O ânimo, como cheguei, foi aos poucos sendo substituído por qualquer outra coisa durante o processo de infusão.

Ao final da infusão minha língua parecia não ter coordenação, talvez tenham colocado alguma outra droga lícita no pacote, mas sem aviso.

Algumas reações são até difíceis de descrever. Além da sensação de estar um pouco bêbado, em algumas regiões do corpo, musculatura, aparecem movimentos involuntários nas coxas ou peito. Bem esquisito.

Findo o procedimento inicial com as infusões de maior quantidade, conectou uma pequena bolsa com uma das drogas. Essa fluiria por mais 44 horas, aproximadamente.

Para quem usou o Gencitabina, os efeitos adversos dessa quimioterapia até foram suaves. Mas talvez o efeito mais sensível, especialmente em relação às outras drogas, acho que foi na imunidade.

Na semana que antecedeu o início do tratamento a taxa de Neutrófilos, um dos índices que compõe a imunidade e serve como aval para fazer o procedimento ou não, era de 1450. Duas semanas depois, ou seja, na véspera de realizar mais uma infusão, estava em 870 e, portanto, não permitiu a realização. Nesses casos adia-se o procedimento no intuito de que o organismo se recupere. No entanto, os exames clínicos revelaram estar ainda mais baixos na semana seguinte, agora em 430, completamente inadequado.

Com isso se estabeleceu um novo procedimento, incluiu um conjunto de cinco injeções para auxiliar a recuperação da imunidade que deveria ser aplicada após o término da infusão, incluindo a bomba. Nesse caso consegui que me liberassem e assim injetava em casa sem a necessidade de ir até clínica.

Febre Neutropênica

No fim de abril, numa sexta-feira, pela manhã senti que havia algo errado, talvez, um início de gripe. Nessas situações, normalmente, bastava que eu ficasse quieto em repouso e em algumas horas ou de um dia para o outro já estava recuperado. Não dessa vez.

Logo cedo estava em um compromisso. Ao retornar para casa sentia-me imensamente cansado e, ao longo do dia, fui baixando cada vez mais.

Parecia uma daquelas gripes que aparecia quando era garoto, derrubava de uma vez. Ia ao pronto atendimento médico, receitava-se a temida Benzetacil e, apesar da dor muscular, no dia seguinte vida nova.

No fim da tarde fui levado ao pronto atendimento recomendado, e a febre que já chegava perto dos 40°C, felizmente foi rapidamente controlada. Os Neutrófilos foram para acima dos 5000 de uma tacada só.

Mais uma semana de folga da quimioterapia e, com isso, a distância entre a primeira para a segunda aplicação chegou a quase 6 semanas.

Nas sessões seguintes até se conseguiu realizar com intervalo de 3 semanas, mas sempre no limite, em termos de imunidade. Entre a quarta e quinta sessão, mesmo com quatro semanas de distanciamento, somadas às injeções, a imunidade já estava baixa novamente, chegando próxima ao limite.

Novos exames de imagens

Ao concluir a quarta sessão de quimioterapia, fiz novos exames de imagens. Os resultados mostraram que os marcadores continuavam a subir.

Diante da situação, meu oncologista sugeriu procurarmos alternativas ao tratamento. Primeiro verificar a possibilidade de cirurgia e segundo a Radioterapia. Assim, fui recomendado a procurar um cirurgião especialista na área em que se encontra o tumor.

Após consulta e exames de imagens, foi verificado não ser adequado cirurgia, sob grande risco de ir a óbito. Dentre os médicos que participaram da avaliação, foi recomendado que ele verificasse em sua especialidade a radioterapia, porém usando um método mais recente.

Trapalhadas em grande centro de tratamento de câncer

Sim! Uma grande trapalhada.

O especialista recomendado desenhou o tratamento radioterápico ao qual deveria me submeter. No entanto, posterior à consulta não conseguíamos obter o custo do tratamento, e a única informação que nos deram foi a de que o convênio não cobria tal procedimento.

Naquele momento até tivemos a compreensão de que, por ser algo novo, o convênio poderia não cobrir, mas se nos dessem algum valor poderíamos pensar em uma forma de transformar em carnê e torná-lo possível.

Três dias depois da consulta em que sugeria o procedimento, e da ausência do suposto orçamento, fomos chamados pelo médico, que, sem se desculpar pela trapalhada, agora nos informava que lá eles não faziam o procedimento para o tipo de tumor que me afetava. Não posso afirmar que tenha sido dele a responsabilidade pela situação, mas enfim acredito que ele deveria ter todas as informações ao transmiti-las. Apesar de nos dizer que não realizavam o procedimento, apresentou recomendações de profissionais que inclusive haviam passado por lá, e Hospitais que realizavam o procedimento, incluindo para o meu caso, isto é, recidivo de Pâncreas.

BP – Uma nova experiência

Na mesma semana agendamos consulta na BP – Beneficência Portuguesa, sendo uma das referências informadas e recomendadas. Fui atendido pontualmente, como gosto, e nem sequer deveria fazer esse tipo de apontamento, pois deveria fazer parte do respeito da entidade e dos profissionais de quaisquer áreas, especialmente da medicina ao lidar com as situações que lidam.

No início da semana seguinte, o procedimento já estava autorizado pelo convênio (sim, aquele que o convênio não aprovava no outro local de referência), e já estava com agendamento para iniciar a preparação.

Radioterapia Estereotáxica

Diferentemente da radioterapia convencional em que os alvos dispõem de certo tamanho e volume, a radioterapia estereotáxica é sugerida em casos de tumores menores, que exigem maior precisão e potência no raio. Se em alguns tratamentos de radioterapia são realizadas 30, 40 sessões, nesse procedimento utilizam-se algumas poucas. No meu caso foram apenas 5 sessões.

Na preparação, a área a receber o raio de radioterapia é devidamente demarcada, bem como as dimensões corporais, para assim facilitar o foco no ponto específico a ser irradiado, e o indivíduo deve ficar o mais imóvel quanto possível durante o procedimento.

Profissionais acessíveis

Dentre os aspectos que mais me chamaram e me chama atenção na BP está a forma como os profissionais podem ser acessados. Em termos de nomenclatura isso tem nome, é a Navegação do paciente pela instituição. Se para marcar uma consulta o profissional é pouco acessível até mesmo por seus auxiliares, ou ainda agendam pacientes e mais pacientes sem respeitar tempo de consulta, há algo de errado.

Nesse aspecto, desde o primeiro agendamento foi diferente.

Ao realizar o agendamento de minha primeira consulta a respeito do tratamento de Radioterapia Estereotáxica, foi recomendado procurar por alguém específico. No entanto, por estar com agenda ocupada, a atendente que realizava o agendamento sugeriu que eu procurasse pela Dra. Lívia Alvarenga. Os profissionais se falaram por mensagens e, em instantes, resolveram a situação. A mim coube aceitar, ou não, o nome sugerido, lembrando que são da mesma equipe.

Durante a realização do tratamento decidi verificar se possuíam algum nome de referência para o meu caso, e quem sabe pudesse transferir completamente o meu tratamento para lá. Dirigi-me até o setor de oncologia, já com um nome a procurar e eis que, facilmente agendei minha consulta. Não bastante, às vésperas do agendamento fui procurado por ele para saber de mim se poderia antecipar a consulta.

Quando se trata de tratamento oncológico recomenda-se a prevenção, se já está em tratamento atrasos são perigosos e assim, antecipar a agenda pode ser uma ação bastante adequada.

Na data e hora marcada, com alguns poucos minutos de atraso, fui atendido e, desde então, sigo o meu tratamento nessa instituição. Na verdade não, fiz um ajuste, pois soube que o convênio cobria o tratamento no BP Mirante, conhecido como Hospital São José. Os profissionais são praticamente os mesmos, mas a hotelaria é melhor.

No protocolo FOLFIRINOX são recomendadas 12 sessões de infusão. Inicialmente fiz 5 sessões na clínica, e complementei as demais na BP.

A equipe médica fez alguns ajustes na medicação da infusão e substituiu o conjunto de 5 injeções por uma única, cujo efeito se mostrou bastante superior, a ponto de conseguir concluir as 12 sessões, dessa vez com intervalo regular de duas semanas.

Também foi inserida uma medicação para diminuir as perdas de nutrientes pela diarreia, que era efeito adverso tão comum e já assimilado desde o pós-cirúrgico e quimioterápico anterior, que para mim havia se tornado normal.

Outro ajuste que se mostrou adequado foi a inclusão de medicamento para ajudar no raciocínio. Com o tempo desconfiou-se que pudesse haver a necessidade de verificar a atividade da glândula tireoide, o que se mostrou correto.

Embora o tratamento com as 5 sessões de radioterapia tenha ocorrido em agosto, os especialistas afirmam que seus efeitos podem surgir até um ano depois. Durante essa etapa do tratamento os marcadores não baixaram, mas mantiveram-se estáveis, bem como o tamanho do tumor.

Durante duas sessões de infusões seguidas, isto é, em sessões diferentes, iniciei meu almoço enquanto, em paralelo, havia sido iniciada a aplicação da oxaliplatina. Eis que de repente a comida parecia ter se transformado em areia; na primeira vez não me toquei que a medicação naquele momento que poderia estar causando efeito adverso, na segunda vez consegui ficar mais atento e, daí por diante, solicitei que meu almoço fosse antecipado e, ainda, que pudesse atrasar a aplicação do medicamento por alguns minutos até que pudesse concluir a refeição.

Esse detalhe foi, para mim, bastante importante, e justificou o fato de poder utilizar um local que oferece qualidade no tratamento e possibilita os ajustes na prática cotidiana, aquilo que mencionei antes em termos de hotelaria.

Bastou mencionar o assunto com a nutricionista, bem como, a responsável pelo o almoço e o problema estava resolvido.

Essa etapa de tratamento terminou com direito a receber um belo presente da equipe de profissionais que com bom humor permitiu fechar a etapa do tratamento.

O tratamento em si, talvez esteja longe do fim. Mas, por hora, é isso.

Referências:

Dicionário de etimologia médica

www.oncoguia.org.br disponível e acessado em acessado em 31/12/2019

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas como o aconselhamento em transição de carreira.

Este post tem 2 comentários

  1. Sirlei

    É impressionante como falta respeito à vida dos pacientes em algumas instituições. Mas, graças a Deus, existem instituições como a BP que te acolheram tão bem. A confiança estabelecida entre paciente e equipe médica ajuda muito no tratamento. Tomara que ao fim do tratamento desta recidiva você fique completamente curado.

  2. Maria+Alice+Aguiar

    Nossa luta será eterna, mas as vitórias, ainda que secionais sempre são vitórias. Fique bem

Deixe um comentário