O tempo

O tempo

Para muitos estudiosos que já se debruçaram sobre o tema vivemos em um espaço “nada” temporal. Esse modo de pensar o tempo se deve ao fato de que aquilo que já vivemos ficou em algum espaço temporal a que se denominou passado; aquilo que ainda não aconteceu está num espaço temporal a que denominou-se futuro e entre esses dois espaços está algo que se chama presente. O presente é, nesse sentido, o nada e está situado entre aquilo que imediatamente já ocorreu, o passado, e aquilo que ocorrerá imediatamente no momento seguinte, o futuro. Ao se dar conta que viveu algo puff! já foi é passado e ao pensar que algo poderá ocorrer, mas não ocorreu pode ser futuro, mas ao pestanejar pode dar-se conta que já aconteceu e aí já não está mais no futuro e sim no passado.

Assim quando olhamos o tempo representado e percebido nos nossos relógios espalhados, aliás, por todos os ambientes que frequentamos, criamos uma percepção de que temos algum controle, o que não é exatamente verdade.

Imaginemos, por exemplo, o fim de um jogo de basquete, futebol ou qualquer outro em que um dos times está em alguma vantagem, diz-se nesses casos que o time em vantagem está administrando o tempo, isto é a vantagem, e por vezes segura um pouco mais a bola, nesses casos poder-se-ia dizer que o tempo estaria numa posição de aliado. Imagine agora o momento seguinte em que a vantagem passou para o time adversário, portanto, àquele que perdeu a vantagem o tempo tornou-se inimigo e quem sabe o locutor poderia até dizer “é uma luta contra o tempo”. Será mesmo?

Minha alta médica ocorreu em 13 de abril, da primeira cirurgia, em alguns dias conheceríamos o laudo anatomopatológico do material removido de minhas vísceras e, enfim, saberíamos se o que tive foi apenas um tumor ou um câncer. Até aí não me atrevia a falar sobre essa palavra.

Na tarde de 23 de abril, uma terça-feira, soubemos o resultado e o que era mais ou menos esperado se confirmou era um câncer e o tratamento passaria por sessões de quimioterapia. Naquela mesma tarde de posse das informações do laudo o cirurgião responsável pelo meu acompanhamento me solicitou que me internasse imediatamente para a implantação do ‘port-a-catch’, de início confesso, aquela pressa toda me incomodou um bocado, era como se eu fosse um mero objeto da medicina, em que não importa o que você pensa a esse respeito, mas enfim, confiei no profissional que me acompanhava e segui com a recomendação.

Depois de fazer minha refeição em casa dirigi-me ao Hospital e iniciei o processo de internação, mas não havia leito disponível e minha opção era a de ficar em um dos leitos da sala de observações e aguardar para que liberassem algum quarto para proceder ao meu processo. Era madrugada quando me liberaram, fui levado ao quarto e assim iniciava-se o pré-operatório para a implantação do cateter. Na tarde do dia 24, após os procedimentos obrigatórios e exames diversos fui levado ao centro cirúrgico e, enfim, realizada a implantação do acesso vascular “port”. Após a implantação do acesso fiquei por algum tempo em observações e uma ou duas horas depois já estava no quarto. Mais um dia de internação e área eu tinha pressa para ir embora. A ordem era “movimente-se” e assim circulava pelo corredor do andar em que me encontrava e no dia seguinte, quinta-feira, alta médica.

Já em casa evitando ficar simplesmente sentado em frente a TV e dentro de minhas possibilidades tentava seguir a recomendação de me movimentar. Na mesma tarde e com muita dificuldade dei uma volta no quarteirão em frente ao prédio em que moro. Na porta do prédio encontrei uma de minhas vizinhas que não via desde o sábado anterior à internação de 1º de abril, ela queria saber o que havia ocorrido e então sugeri, caminhando, que ela caminhasse comigo, em alguns momentos me faltava ar, mas enquanto caminhava ia contando o que houve desde nosso último encontro.

altair oliveira - acompanhamento oncologico em psiciologia

Eu não tinha a menor noção do que estava ocorrendo comigo.

No dia seguinte me sentia melhor e teria ainda no período da manhã consulta médica para me auxiliar com minhas dificuldades de alimentação no pós-cirúrgico. No consultório a consulta agendada não seguiu o horário agendado, pois é, parece que meu tempo era diferente daquele do médico, depois de reclamar com a recepcionista saí do consultório solicitando ser contatado quando de fato pudesse ser atendido; saí do consultório e a caminhada até um estabelecimento próximo dali, uma farmácia de manipulação pet, a cerca de 300 metros tornou-se uma distância infinita. Enquanto voltava fui avisado que a consulta se daria na sequência e assim com grande atraso fui atendido.

Alguma coisa estava errada comigo e na mesma tarde solicitei ser atendido pelo responsável pelo cirurgião que acompanhava o meu caso. Sem notar nada de muito crítico o médico me solicitou passar pelo hospital e solicitar um raio X.

No dia seguinte, sábado, me esforcei e fiz pela manhã uma volta e à tarde uma segunda volta no quarteirão em que moro. Para a semana seguinte haveria, na terça-feira, consulta com o Oncologista e que acompanharia na etapa seguinte, a etapa de quimioterapia, entretanto soube que no domingo às 10:00 da manhã ele estaria no hospital e assim deixei para realizar o exame quando fosse ao Hospital.

Após uma rápida entrevista com o Oncologista dirigi-me à triagem e expliquei que o cirurgião havia recomentado realizar o raio X do pulmão e que estava tendo alguma dificuldade ao respirar. Instantes depois de realizar o exame já estava retornando em consulta com a plantonista. Era possível perceber que a coisa tinha alguma gravidade.

Mesmo não sentido que a coisa fosse tão grave fui levado à observação com orientação de que não tentasse me mexer muito e muito menos levantar-me da maca. Dali era possível observar na tela do computador que meu pulmão direto estava completamente fechado.

Iniciava-se assim mais um procedimento cirúrgico, o terceiro do mês de abril, em poucos minutos estava sendo entrevistado pelo médico especialista e que eu havia tido entrada de ar entre a pleura e o pulmão direito, que o ar precisaria ser drenado e que era um procedimento rápido com anestesia local apenas e não seria muito dolorido.

altair oliveira -psicologia vila mariana

Pimenta no dos outros é refresco!

Durante o período em que fique na sala de observações fui visitado pela plantonista que me atendeu e esta demonstrou grande preocupação com o meu estado, mesmo que naquele momento eu não tivesse noção do quão grave era e enquanto isso realizei outros exames pré-operatórios até que ocorresse a cirurgia.

Por volta das 14:30 fui levado ao centro cirúrgico e por volta das 15:00 iniciou a cirurgia. Enquanto cada passo acontecia o médico me explicava apesar daquela fala “não vai doer”, eu não sou o cara que suporta dor, senti a anestesia e em seguida a ela algo perfurando próximo de minha axila direita, instantes depois já estava sendo solicitado a tossir e assim estávamos testando a solução e dreno. A cada tossir ouvia um ruído e o ar já estava sendo drenado. Às 15:10 o procedimento já estava encerrado e já iniciava os procedimentos finais com a limpeza e remoção do aparato cirúrgico.

No fim da tarde do domingo já estava na UTI. Tudo o que eu teria a fazer era utilizar o pulmão tentando respirar o mais profundamente possível.

Ficar na UTI é para muitos pacientes um prejuízo sob a ótica na recuperação, em minha opinião este era o meu caso.

Depois de receber as visitas dos meus familiares e até a queixa de que cada saidinha dessas para passear no hospital eu ficava uns dias fora de casa, fui, um pouco mais tarde, apresentado à fisioterapeuta e que esta me auxilia em minha recuperação. Questionei se ela poderia me ajudar a caminhar e de imediato ela me respondeu que se eu estivesse com disposição, sim! Respondi que estava precisando disso e assim minutos depois já estava circulando pelos corredores da UTI.

Tudo o que não se tem na UTI é silêncio e tranquilidade. No leito do box ao lado havia uma senhora bastante debilitada e que produzia algum barulho, claro, fruto do próprio sofrimento. Os sons dos monitores, os enfermeiros que de tempos em tempos vem checar os sinais vitais e assim a noite vai passando. Pude reconhecer nessa noite uma enfermeira que durante minha primeira internação chegou a desligar meu equipamento de estimulação das pernas por que este produzia barulho a mesma que tentava convencer seus colegas que morar na mesma região que ela era o melhor.

Na manhã seguinte fui reconhecido por um dos médicos responsáveis pela passagem dos plantões que passava de leito em leito relatando cada caso aos seus respectivos responsáveis em suas especialidades e além de uma brincadeira que ele fez ao me reconhecer comentou que eu teria alta médica da UTI ainda no período da manhã, bastando que minhas funções estivessem em ordem e, claro, havendo quarto disponível na internação.

Já no quarto, minhas recomendações eram os exercícios respiratórios para que o mais rapidamente o ar fosse drenado. Contei com a preciosa ajuda da terapeuta que, além dos exercícios, conseguiu que utilizássemos também um equipamento de estimulação respiratória (CPAP) e assim com os exercícios físicos, caminhada pelo Hospital, e os exercícios específicos a recuperação poderia ser o mais rapidamente viabilizada.

Entre as muitas visitas que recebi e todas muito importantes, os exercícios e a orientação da Fisioterapeuta minha recuperação foi bastante rápida e efetiva.

Durante essa minha estada pude perceber o quão assustador é saber que alguém está em tratamento ou com câncer. Alguns parentes que me visitaram durante o feriado chegaram com um certo ar de “sei lá …, qual será o estado de saúde …, pode ser que seja uma das últimas vezes que o vemos … e assim por diante”, mas felizmente depois de nos encontrarmos e brincar com a própria história e como foi descoberto o tumor. No meu caso possivelmente até contando com a sorte houve a detecção e a remoção o mais rapidamente possível. O que também libera caminho para a próxima etapa.

Mais uma alta médica e espero que tão cedo não tenha nenhuma outra intervenção com a necessidade de internação. É muito cansativo.

Com alguma ansiedade em 02 de maio, ainda pela manhã, depois de dar algumas voltas pelos corredores e realizar uma bateria de exercícios respiratórios recebi a visita de um dos médicos da equipe que realizou o procedimento Pneumotórax. Disse-me ele não doeria nada, é claro! Bastaria que eu respirasse profundamente e retiraria o dreno e colocaria um curativo no lugar.

Esse procedimento foi tão rápido quanto dolorido. Não deu para sequer pronunciar um FDP, daqueles com gosto e bem alto, mas enfim já estava com o curativo e bastaria a solução das questões burocráticas para ir embora.

Na semana seguinte retomei parte significativa das minhas atividades profissionais, com maior cautela, mas tentava, na medida do possível, retomar a normalidade, isto é, aquela regularidade e previsibilidade que o uso do tempo nos permite supor presentificando cada instante.

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas como o aconselhamento em transição de carreira.

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