O tédio e suas manifestações

O tédio e suas manifestações

Nosso mundo é cada vez mais líquido, como afirma Bauman, em seus inúmeros escritos, e isso é cada vez mais perceptível a olhos nus ao nos colocarmos em situação de observação do mundo. Essa liquidez a que o sociólogo se refere tem a ver com o nosso tempo, tempo em que nada é durável e a cada período precisa ser substituído por algo novo. Sua análise é bem mais profunda e avança sobre outros aspectos da sociedade pós-moderna, mas por hora me aterei apenas à questão do tempo.

Para alguém que tenha a possibilidade de, por exemplo, utilizar-se do transporte público com a possibilidade de observar as demais pessoas, sem prover qualquer julgamento de valor a partir dessa observação, tente ver o que estão fazendo a maioria. Facilmente será percebido que em uma grande parte do grupo observado, estes estão deslizando seus dedos por seus celulares e assim trocando os feeds que, até milésimos de segundos atrás eram atuais, que já não são mais novos e se tornaram desatualizados.

Esse mundo pode ainda ser observado de outro ponto de vista em que estamos em um momento histórico altamente tecnológico, não novo, podemos considerar no mínimo desde fins do século XIX, passando pelo XX e chegando ao atual século XXI ainda mais intensificado e não estou mencionando isso apenas pensando na tecnologia dos celulares e outros equipamentos que passaram a fazer parte do nosso cotidiano e sim, baseado no fato de que em grande medida nossas vidas tem sido guiadas pela tecnologia.

Esse modo altamente tecnológico e até codependente de viver a vida se dá nos detalhes em que para tudo o que fazemos há por parte de algum especialista, às vezes supostos especialistas e falsos gurus, alguma receita mágica e que se a seguirmos obteremos o elixir dos deuses com a vida eterna, isto é, o resultado prometido.

Facilmente podemos perceber esse excesso tecnológico nos programas de TV com seus programas culinários e suas receitas para a manutenção do corpo, nos semanários nas bancas de jornais, nos periódicos ditos científicos em que, a cada nova descoberta, às vezes não novas e por vezes apenas um novo pedaço da teoria, desdizem aquilo que acabou de ser publicado e assim cada vez mais rápido precisamos de algo que nos tire de um certo estado e nos coloque noutro ainda mais necessitados de mais feeds e novos modelos de mundo.

Esse modo de enfrentar a vida tem sua origem no pensamento cartesiano de Descartes, 1596 – 1650, “penso logo existo!”, que, nos tempos atuais, poderia ser facilmente substituído por estou conectado e faço parte de alguma rede social, logo existo!

Se ao longo do existir humano, antes de tanta tecnologia, o homem poderia olhar para o céu e colocar toda a sua angústia e incertezas sobre o desconhecido Deus ou, por que não dizer Deuses, a depender do período da história, atualmente muitos fenômenos, até bem pouco tempo desconhecidos, têm sido desvendados e explicados, muitas vezes de modo matemático de modo que podem até ser replicados ou ainda serem previstos em termos temporais.

Assim, se antes as angústias e medos em relação ao futuro poderiam ser entregues ao desconhecido, mas confiável Deus, com o esclarecimento do mundo tal possibilidade vai sendo minimizada e como consequência natural sendo entregue ao próprio homem e seu existir a responsabilidade por seu modo de ser e existir no mundo.

Vale notar que no fim do século XIX grande parte dessa angústia foi percebida e estudada por Freud, nos ruidosos fenômenos da Histeria, com seus gestos, paralisias e convulsões, e já naquela época era possível, através dos seus achados, encontrar a ligação dos tais fenômenos histéricos aos sentimentos de angústia e culpa.

Angústia e culpa como fundamento

De pouco adianta, no entanto, qualquer tentativa de responsabilizar o pensamento pós-moderno, surgido especialmente após o fim da segunda guerra mundial, pelo aumento das angústias e medos da vida, pois as angústias e medos sempre fizeram parte da história humana.

Considerando a Fenomenologia e o Existencialismo em termos filosóficos e que consideram que o homem em seu existir é destinado a finitude dada por sua morte, a angústia nesse sentido é o próprio medo da finitude e sua consequência natural.

Tédio

Há, entretanto, nesses tempos de pós-modernidade, múltiplos esconderijos possíveis para o encobrimento desses sentimentos de angústia e medo que vão tornando a vida fria, sem sentido e exigindo cada vez mais passatempos para suportar o tédio do esvaziamento.

No tédio, caberia ou poderíamos fazer caber uma quantidade de comportamentos patológicos que, como fez Boss, “…, que poderia ser chamado neurose do tédio, ou neurose do vazio, é a forma de neurose do futuro imediato”.

O tédio em cujo termo se exprime no próprio nome um sofrer vagaroso do tempo. A palavra em alemão, langeweile, significa tempo longo, vagaroso. Uma certa perda do enraizamento na vida, cujo sentido vai se esvaindo e solicitando cada vez mais por novos meios, passatempos e tentativas de livrar-se dele.

Ser, do ponto de vista da Fenomenologia Existencialista, é sobretudo presença, no sentido, conforme proposto por Heidegger em Ser e Tempo, do existir, do ser-aí, assim ser se dá na apresentação para a vida, e é exatamente na cotidianidade que em muito do sentido do existir é perdido. Este pensamento pode ser complexo e merecer mais atenção.

A angústia em cuja origem Alemã, angst, quer dizer tanto angústia como medo, do ponto de vista do Existencialismo essa angústia é em essência abertura para o sentido, conforme Boss explica “Cada angústia humana tem um de quê, do qual ela tem medo e um pelo que, pelo qual teme”.

Esse do que mencionado é em si a possibilidade de um ataque lesivo ao existir humano, ou seja, no fundo o temor é exatamente a finitude desta presença, do ser-aí. O pelo quê é assim o cuidado e o zelo no sentido de preservar o existir desse ser-aí.

É justamente no viver que quem mais teme a morte teme a vida, pois é no viver que a vida se desgasta.

A angústia também abre a possibilidade da culpa na medida em que tal abertura não é considerada, em certa medida caindo na mundanidade do tédio e seus passatempos. Em sua origem Alemã, schuld, que significa débito, carência, falta, além disso é derivada de sculd que traz um sentido ainda mais profundo, pois revela algo faltante que não pode ser preenchido na vida do ser humano.

A culpa tem, nesse sentido, um o quê que ela deve e um credor a quem está devendo. Esse credor é em si a própria existência quando esta não é atendida.

Essa culpabilidade pode ser ainda pensada como o medo do castigo, como na situação de uma criança que devendo respeito, quando em situação de desrespeito nutre o sentimento de culpa temendo ser castigado pelo pai.

Apenas para esclarecer em situação corriqueira do cotidiano de qualquer um de nós muitas vezes temos um querer profundo em realizar algo e que em muito nos preencheria em termos de satisfação, no entanto, por algum motivo, por não nos sentirmos preparados o suficiente, por não sentirmos capazes de realizar tal sonho, colocamos tal realização em termos de apenas sonho.

Tomemos como exemplo a situação de alguém cujo desejo é a formação universitária, em termos práticos, tal querer vai sendo colocado de lado. Em seu lugar foram criadas necessidades e prioridades, o tempo vai passando até que vários anos se passaram e um grande mal estar se achega e se instala, mas por não saber o que tal sentimento representa este busca abrigo nos passatempos do mundo, nesse exemplo, trabalhando cada vez mais e sentindo-se cada vez menos útil, sem valor e ainda incutindo o vício das compras por tudo e qualquer coisa.

A cada compra realizada mais culpa, passado o momento da realização da compra, e com tempo mais desabrigo e crescimento do autoabandono, do desvalor e o próprio desejo pelas compras. Até que chegando ao insuportável, busca ajuda e dá-se conta de que em algum momento queria formar-se em curso universitário.

O que quero demonstrar através desse exemplo simples é que a angústia se abriu na possibilidade de busca pela formação universitária, mas pelos mais diversos motivos, autênticos e, ou não, ao invés de buscar a realização tal querer foi sendo colocado de lado. Na medida em que crescia a culpa e o medo, este buscava cada vez mais os prazeres mundanos através das compras, das compulsões e na medida em que se encontra novamente com seu querer autentico seu existir se abre para um novo sentido.

Manifestações de tédio

Tem dias que a gente se sente
Um pouco, talvez, menos gente
Um dia daqueles sem graça
De chuva cair na vidraça
Um dia qualquer sem pensar
Sentindo o futuro no ar
O ar, carregado sutil
Um dia de maio ou abril
Sem qualquer amigo do lado
Sozinho em silêncio calado
Com uma pergunta na alma
Por que nessa tarde tão calma

O tempo parece parado?

As profecias – Raul Seixas

Na vivência do tédio há uma experiência do tempo que vai se tornando enfadonho, um viver cujo sentido vai se perdendo no mundo e do mundo. Parece, às vezes, que o mundo está em câmera lenta, se você teve a chance de assistir ao filme Melancholia, dirigido por Lars von Trier, saberá bem do que estou falando, ao dar-se conta desse mundo sem sentido muitas vezes buscamos abrigo em ações que de imediato parecem fazer algum sentido, mas que ao final apenas confirma a total ausência de propósito.

Nesse nexo, essa perda de sentido nos abre para a possibilidade de ir em busca de algo que de fato passe a fazer sentido e propósito, mas ao invés disso nos abrigamos nos passatempos. É possível, tomando como base tal raciocínio a associação de diversos modos de ser tidos como patológicos, como tendo em seu fundamento a angústia, o medo e a culpa existencial. Dentre tais modos de existir poderíamos de imediato incluir as compulsões, as fobias e os modos depressivos.

Superação do tédio

O importante é que é possível a superação do tédio e aquele aperto no peito com suas manifestações no mundo através do enfrentamento da angústia. Se há angústia há a necessidade de confiança e coragem para enfrenta-la e sobretudo amor, amor próprio, amor que abrigue e possibilite o surgimento de novos sentidos, pois se não houver tais sentimentos a angústia poderá não ser superada.

O presente texto tem como base os seguintes autores e títulos:

Moderniade Líquida – Bauman, Z – 1999

Angústia, Culpa e Libertação – Boss, M – 1988

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas.

Deixe uma resposta

×
Olá,
Posso ajudar com alguma informação?