O humor depressivo e a confusão com a depressão

O humor depressivo e a confusão com a depressão

Tenho percebido algumas situações em consultório que me fazem pensar a respeito da identificação – digo, a auto identificação – com a depressão, mas que não é formalmente a depressão e, nesse sentido, creio que vale tratar do tema com a seriedade e serenidade que merece, e ao menos tentar contribuir para desmistificar essa questão.

Na prática isso significa quepodemos estar em um estado de humor que se parece com a depressão em termos de tristeza, mas não necessariamente é a depressão, embora, é claro, a persistência nesse estado certamente poderá levar o indivíduo à psicopatologia.

Claramente estamos tratando aqui de um estado depressivo ou uma tonalidade afetiva, e não da depressão.

A depressão em linguagem corrente pode ser simplesmente a menção de alguém que se encontra entristecido por algum período de tempo e, nesse sentido poderíamos tomar como um sintoma e, novamente, não é a depressão enquanto psicopatologia. Assim, a depressão enquanto psicopatologia poderia ser considerada como uma síndrome por abarcar no conceito vários sintomas e características.

Humor depressivo ou tonalidade afetiva

O tema é vasto, complexo, mas merece o empenho.

A própria nomenclatura utilizada já nos dá pistas a respeito das escolas a que pertencem. Assim, ao se referir ao humor depressivo, é possível associar à escola Psicanalítica e bem mais próxima da linguagem cotidiana, enquanto que, tonalidade afetiva emerge da Filosofia Fenomenológica ou Existencialismo.

Trabalharei o tema mais focado em tonalidade afetiva, conforme o conceito Heideggeriano, mas ao mesmo tempo tentarei manter a linguagem mais cotidiana e conhecida.

Ao sermos lançados no mundo somos também lançados à morte, à finitude e, como condição fundamental de abertura para o mundo, à angústia. Na angústia temos a possibilidade de nos abrirmos ao novo, ao autêntico, mas também na decadência em que decaímos no mundo do fazer cotidiano e inautêntico.

Angústia que se abre também ao medo da não existência, e esse é o ponto chave da nossa questão, isto é, a tonalidade afetiva do medo.

Diante de uma situação em que o indivíduo é exposto a uma decisão existencial, ele é igualmente colocado de fronte do medo, que em última análise poderia leva-lo ao não mais existir. Diante do não existir, vê-se obrigado a fugir da situação. O que o coloca cada vez mais amedrontado, angustiado.

Nessa fuga passa a evitar o chamado existencial, e ao invés de assumir o que de mais autêntico poderia ser, em termos de resposta e decisão existencial, aprofunda-se ainda mais no medo.

Nesse nexo, quanto mais medo, mais deseja fugir do que se teme, e, ao tentar fugir do que se teme, mais entregue à decadência mundana. E é assim, como um animal que tenta correr atrás do próprio rabo, sem que se consiga jamais alcançá-lo.

O meio para quebrar esse ciclo é a reflexão, a análise.

O que notei em alguns pacientes e, em especial, em alguns que já viveram a depressão, essa confusão pode se tornar um tanto mais difícil de separar, pois muitos aspectos se parecem em muito com a vivência psicopatológica.

A fim de melhor esclarecer essa situação, essa tonalidade afetiva no medo, e a depressão, acompanhe, por favor a situação a seguir.

Vejamos o exemplo proposto por Merleau-Ponty (1999), e que é chamado de membro fantasma. Nessa situação, alguém que teve um dos membros amputados tem diversas sensações como se aquele membro ainda estivesse presente em seu corpo.

De modo similar, Tatossian (1982) chamou de corpo vivido diferenciando uma série de fenômenos entre um corpo e o corpo vivente, a experiência vivida, o é através do corpo e passa a dar sentido ao existir humano ao juntar o psíquico e o fisiológico.

Seguindo nessa direção, isto é, a alguém que tenha passado pela vivência da depressão psicopatológica, a simples lembrança de tal modo de existir já abre para si grande parte dos fenômenos experienciados como se estes se presentificassem no momento da lembrança.

Assim, para alguém cujo momento existencial está centrado na tonalidade afetiva do medo, a experiência pode se assemelhar à vivência da depressão, ainda que após uma análise um pouco mais profunda se perceba que são situações bastante distintas.

Pois bem, imagine que esse alguém que viveu uma situação de depressão por um longo tempo e tem em momento presente situação que pudesse ser sentida de modo similar ao já vivido. Para todo efeito, será de novo a depressão batendo à porta.

Possivelmente grande parte daquilo que se descreve como presente na depressão será novamente percebida, mas ao olhar os detalhes, será possível perceber que não é a mesma coisa.

Tomando desse modo essa tonalidade afetiva ou, o que em linguagem mais comum se chama humor depressivo, em certa medida está dizendo que há algo de errado, pode ser exatamente o sinal de saúde.

Algo como: preste atenção!!!

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas.

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