Enfim, a primavera

Enfim, a primavera

A publicação desse texto na data de hoje, 27/11, não é coincidência. Essa é a data instituída para ser o ‘Dia nacional de combate ao câncer‘ – Cuidado, informação e prevenção contra o estigma da sentença de morte.

Ainda estava no mês de agosto. Uma daquelas segundas-feiras em que, sequente à sessão de quimioterapia, e de madrugada vem a insônia, em algumas dessas noites cheguei a dormir menos de 2 horas.

A essa altura, às vezes, antes mesmo das 2 da manhã já me encontrava acordado, com sono, mas acordado e nessas situações não resta muito o que fazer senão ouvir os sons que vinham da vizinhança, às vezes, o som de algum veículo cruzando rápido as ruas da vizinhança, e felizmente, para mim que gosto, um ou outro pássaro que já começava a cantar.

As orquídeas na varanda já apresentavam os primeiros botões e muito brevemente apresentariam uma boa florada com suas flores coloridas.

Bastante cabível questionar se não seria cedo demais, afinal, faltava ainda mais de um mês para a chegada da estação mais florida do ano.

As noites ainda se apresentavam bastante frias, típicas, aliás, do inverno, a estação corrente.

A primavera, estação que representa o novo, o renascimento costuma ser também a mais colorida e seu nome tem a ver com esse início de mudança. Em sua origem latina os vocábulos Primo e Vere (primeiro verão) se juntam formando a palavra primavera, como se a estação que de certo modo se inicia no fim da estação mais fria do ano, se mistura e nesse finzinho de estação já traga a presença dos primeiros raios de sol típicos do verão, a estação mais quente, aliás, em alguns momentos ela se mostra exatamente como o verão com calor intenso.

O que me chama a atenção nesse período é a representação do novo e da esperança. Para mim cuja jornada e tratamento de um câncer se iniciou pouco depois da chegada do outono é como se essa estação, o outono, houvesse se iniciado em 1º de abril e estivesse chegando ao seu fim junto com o fim do meu tratamento quimioterápico e ainda na primavera.

O tratamento não foi fácil, mas descobri que apesar das dificuldades, estas puderam e foram superadas. Especialmente na segunda metade do tratamento pude comemorar pequenos resultados, mas para mim, muito significativos como não precisar mais de usar os analgésicos e, portanto, redução do incomodo causado pelas muitas vezes que precisava ir ao banheiro.

Também houve redução de outros efeitos colaterais, isto é, a hipersensibilidade ou síndrome dos pés e mãos. A redução de cada um destes efeitos vale uma comemoração, pois representa o retorno ou aproximação da vida que conheço no meu dia-a-dia e faz mais sentido.

Também pude comemorar outra vitória, refiro-me ao tratamento por um câncer de mama, que uma amiga está fazendo, ela chegou ao fim das sessões de quimioterapia em meados do mês de setembro e com resultados importantes, o tumor foi reduzido e em outubro fez a cirurgia para a remoção da área que havia sido percebida com o tumor.

Outra situação importante foi saber que outro amigo meu, apesar de ter descoberto um tumor no estômago, a descoberta foi realizada no início e, nesse caso, com uma cirurgia realizada através de robô, o tumor foi removido e graças ao tipo de cirurgia realizada, a recuperação tem sido bastante rápida e melhor ainda, sem a necessidade de realização de quimioterapia.

Câncer: Sentença de morte?!

O simples fato de saber que se está com câncer, de modo geral, já nos vêm traz uma sensação de uma sentença de morte, mas com os esclarecimentos e as possibilidades de tratamentos que têm sido atualizados também surge a esperança e a diminuição daquela temida sentença.

O que faz com que o câncer se pareça com uma sentença de morte é muito centrado na ideia de que até alguns poucos anos atrás, o número de óbitos por câncer era muito alto e, informações divulgadas recentemente, considerando a década atual, demonstram que tem havido queda, conforme publicação do portal G1, os tratamentos mais generalizados eram sempre tidos como insuportáveis. Mas o fato é que segundo tais informações, os óbitos por câncer de mama, e por câncer de próstata foram bastante reduzidos, além de outros tipos que também tiveram queda.

Evidentemente que isso não significa que as notificações estejam diminuindo, ao contrário, os números são cada vez mais alarmantes, pois tem crescido mundialmente.

Em grande parte a redução no índice de óbitos por estes tipos de cânceres se deve:

Ao acesso à informação, às campanhas temáticas como outubro rosa que objetiva levar as mulheres a se informarem a respeito da prevenção e tratamento do câncer de mama e, não menos importante, o novembro azul cujo objetivo é levar os homens, que estatisticamente frequentam pouco os consultórios médicos, muito, aliás, por preconceito, a se conscientizarem da necessidade do cuidado, especialmente, em relação ao câncer de próstata o mais comum e mortal a atingir os homens.

O que faz com que o diagnóstico de câncer deixe de ser uma sentença de morte é exatamente: informação e atitude. Informação para que diante da percepção de que há algo de errado deve se buscar ajuda e a atitude de não deixar pra depois e buscar a ajuda necessária.

Outro aspecto importante que destaco é que felizmente os protocolos de tratamento que tenho ciência e que estão em uso por aqui são os mesmos ou muito similares aos de tratamentos realizados no exterior, o que demonstra que ao menos para quem tem tido acesso à medicina de ponta, e devo dizer que não somente a quem paga pelos serviços de saúde suplementar, mas também a pacientes atendidos pelo SUS, tem tido tratamentos similares aos realizados em países como Alemanha, Inglaterra, dentre outros, o que também nos dá segurança e, por que não dizer, esperança.

Fim de tratamento: recomeço

Em fins de outubro encerrei meu tratamento que incluíram centenas de comprimidos e 18 sessões de quimioterapia realizadas no hospital, agora que já se encerrou, parece ter sido até mais rápido e nem parece que foram mais de seis meses de tratamento.

O tratamento medicamentoso se encerrou, sim, mas durante o próximo ano há uma etapa de grande importância que é o controle, com exames de rotina e visitas ao oncologista responsável pelo acompanhamento do meu caso, sem deixar de realizar a limpeza mensal do cateter venoso central (port-a cath).

A primavera que se inicia, não necessariamente a do calendário, pois essa já está próxima de se encerrar, mas essa que marca o fim do meu tratamento e que representa a esperança de que o tratamento foi e continuará sendo bem-sucedido.

Esperança para que os tratamentos se tornem menos agressivos, com novas drogas; que estes se tornem mais acessíveis; e, ainda que cheguem a um número cada vez maior da população e com isso retirando da doença esse estigma de sentença de morte.

Consulte: situação do câncer no Brasil: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/situacao_cancer_brasil.pdf

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas.

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