Depressão e o tempo

Depressão e o tempo

Meu tema de pesquisa quando em minha graduação em psicologia  foi a Depressão, aliás, a Depressão na pós-modernidade, ou seja, essa que conhecemos nos nossos tempos. Por alguma motivação, não sei se por conta do meu desejo de escrever para este Blog ou por ter ouvido uma matéria bastante extensa em telejornal, o fato é que resolvi revisitar o tema e trazer para compartilhar contigo.

Na história há relatos de Depressão desde o Século V a.C., na Grécia, por Hipócrates, naquela época propunha-se explicações naturais para os sintomas. No Brasil os primeiros estudos datam de 1837. O fato de haver relatos do século XIX não implica que não existisse a depressão, mas apenas não era reconhecida como tal.

Especialmente no início do século XX os estudos das doenças mentais avançaram bastante em países como Alemanha, Suíça e França. Em meados do século passado, 1957, a depressão foi associada à baixa de noradrenalina e, mais tarde, em 1970 pesquisadores associaram a baixa de serotonina com o cérebro de suicidas.

Dimensão Tempo

tempo escorrendo pelas maos

Ao longo da história nos séculos XIX e XX é possível perceber uma grande aceleração do tempo. Não que os relógios estejam mais rápidos. Mas a percepção do tempo tem sido percebida como se este estivesse, de algum modo, mais rápido e acelerado.

No século passado, até o fim da primeira metade, havia uma percepção de um tempo mais lento. Enviava-se uma carta e esta só chegava depois de alguns dias, quando na mesma cidade ou cidades próximas, algumas semanas e até meses; antes dos aviões, que não viajavam a centenas de quilômetros por hora. Hoje se envia uma mensagem eletrônica e em poucos segundos ela atravessou o mundo. Se naquele momento para falar com alguém havia o telefone, aliás, para poucos afortunados, hoje pode-se falar e até ver com quem se está falando por meio da evolução do telefone.

Toda essa evolução técnica traz a sensação de um mundo cada vez mais acelerado e que precisamos de algum modo também nos manter acelerados sob pena de perdermos o momento, o chamado “timing”.

Dimensão Espaço

Outro fator de grande relevância pode ser notado como certa calmaria. Até a idade moderna um monarca ficava no poder por vários anos e até décadas, quando não, ainda transferia ao seu sucessor natural e isso era percebido como algo normal. Já nos tempos mais recentes, século XXI, fala-se em crise de representatividade, isto é, os supostos líderes não representam verdadeiramente sua população.

Essa questão tem a ver com algo muito mais importante: “um certo desamparo”. A percepção de calmaria a que me referi a pouco nos traz a ideia de previsibilidade, isto é, eu sei o que vai acontecer amanhã e, portanto, posso viver tranquilo.

Mas o que tudo isso tem a ver com a depressão? Tem muito!

Tomemos, por exemplo, a nossa história recente. De duas décadas para cá o país saiu de uma situação em que havia inflação galopante para um período em que a variação mensal não era tão significativa, perto daquilo que se conhecia. A pouco menos de 10 anos chegamos a ter uma situação em que havia tanto emprego que passou a ter inflação de salários, já que não havia mão de obra qualificada suficiente, aquele que era preparado ditava o valor do trabalho buscando melhores alternativas.

Em pouco mais de um ano as coisas começaram a ruir de modo que aquela situação percebida como estável tornou-se desalento. O emprego, antes farto, dava ao trabalhador o poder de escolha. Com a crise no emprego veio uma grande inquietação e o trabalhador se perguntava: será que amanhã eu terei emprego? Quando será que serei chamado ao RH?

As mudanças na família, como será que era e como é agora?

As famílias também mudaram e muito. A família que até bem pouco tempo era patriarcal e hierarquizada com base no matrimonio e no “até que a morte os separe”, especialmente a partir da década de 1960, mudou e ainda está em mutação. A família tende a representar o contexto social de um período histórico.

Antes núcleo financeiro, de desenvolvimento e de proteção ganhou as marcas do tempo presente em que, muitas vezes, do poder centrado no patriarca para o poder compartilhado e em muitos casos sequer existe a presença do pai, cabendo à mãe o duplo papel. Ainda a competição entre gêneros que mesmo tendo optado pelo casamento nos moldes preexistentes vê no “até que a morte os separe” um grande obstáculo a satisfação.

Tentei até aqui demonstrar o quanto nossa experiencia de mundo tem se modificado nessas últimas décadas e o quanto está mudando.

O contexto social e familiar passou por mudanças profundas. Para muitas crianças nascidas nessas última duas décadas não há sequer uma experiência constante de morar em um único lar. Estou me referindo à situação em que sob a guarda compartilhada, vivem alguns dias com o pai e noutros dias com a mãe e incluamos nesses dois contextos as novas possibilidades, isto é, o pai e a mãe convivendo com seus novos pares héteros ou não. Assim como o tempo, o espaço já não é mais tão previsível.

Essas duas dimensões, tempo e espaço (representado pelas mudanças sociais), que mencionei tornam-se ou podem se tornar fonte de grande angústia.

Sentimento de abandono e perda do sentido

Em relatos de pessoas que passaram pela experiencia da depressão há uma série de aspectos que se repetem e aparecem como falta de vontade, alterações do sono, alterações do humor, perda de peso, ideias de suicídio, percepção de corpo pesado e que, às vezes, não há de onde tirar forças para as coisas mais básicas como um simples banho. Nessa experiência depressiva, a pessoa se sente absolutamente abandonada.

A angústia em situação cotidiana pode ser vivida como possibilidade de abertura e questionamento do sentido da existência, permitindo a abertura a novos sentidos e significações, enquanto na situação patológica é percebida como se nada mais houvesse sentido.

Claro que não é apenas o aspecto psicológico, há no corpo, conforme mencionei, uma experiência diferente, e ainda, mudanças psicofisiológicas que alteram a produção de hormônios e neurotransmissores como serotonina e dopamina. A baixa na produção destes neurotransmissores altera o funcionamento de, dentre outras coisas, o sono.

Por vezes a depressão é tida como tristeza. Mas é necessário fazer a distinção.

Tomemos alguém cujo relacionamento afetivo chegou ao fim. Pois bem, é bastante provável que esse alguém se perceba triste durante algum tempo. Nos primeiros dias é tomado por grande tristeza, mas na medida em que a vida vai se ajeitando e as atividades do cotidiano vão retornando ao eixo o “colorido” ou o gosto vai ressurgindo até abrir-se a outro relacionamento.

Na depressão, no entanto, esse sentimento que se parece com a tristeza não passa, é como se uma substância impregnasse a percepção desse ente que se encontra em depressão e tudo por ele é percebido assim sem cor, sem vida, aliás, é bastante comum nos depoimentos de pessoas em depressão o uso do termo “cinza” ou ainda a menção de estar em um buraco, uma depressão.

Também muito comum é o preconceito pelas pessoas próximas. Diante de tamanha ausência de sentido, em que não se tem vontade de realizar as tarefas mais básicas como o banho ou alimentação, a realização de tarefas e trabalho se tornam hercúleas e mesmo impossíveis, daí a percepção por pessoas próximas de confundir a depressão com preguiça.

Diferentemente de doenças percebidas apenas no corpo em que, ao menos em teoria bastaria tratar do físico, a depressão, bem como outras psicopatologias, é bem mais complexa que simplesmente ir à drogaria com a receita na mão e pegar a cura, e devido a essa complexa rede de sentidos e significados demanda de tempo e vários profissionais da saúde para se chegar à cura, mas cada existência poderá demandar um cuidado específico.

A depressão é sobretudo parte da existência humana e sua manifestação pode até mesmo ser tomada como uma forma de defesa da existência em relação a eventos adversos, independentemente da fase em que se encontra o ente.

Enquanto preparava esse texto e pesquisava algumas informações para melhorá-lo localizei dois vídeos com ótima metáforas. O convido a assistir clicando no link a seguir:

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas.

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Chris Ivory Jersey 
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