As Surpresas do Primeiro de Abril

As Surpresas do Primeiro de Abril

No início desse ano, ainda no mês de janeiro, após um jantar até comum não me senti muito bem e acabei me sentindo mal por uns dois dias. A essa altura não tinha a menor noção do que estava acontecendo. Esse jantar foi na noite de quinta-feira. Na madrugada de sábado para domingo algo novo ocorreu, inicialmente nada significativo, apenas uma coceira que, de momento, pensei comigo “devo ter sido picado por algum pernilongo”. As coisas foram se sucedendo e no fim da noite de domingo a coceira que se iniciou na região da panturrilha havia tomado grande parte do meu corpo a ponto de, na madrugada de domingo para segunda eu ir até o pronto atendimento a fim de verificar o que estava havendo.

Medicado parecia que eu estava passando por uma questão ligada a alimentação, talvez, uma intoxicação, algo leve mas estava incomodando um bocado. Durante a semana seguinte, pelos mais diferentes fatores, medicação, mudanças na alimentação a coceira foi diminuindo até que no final de semana seguinte voltou a intensificar. O que chamava a atenção é que a coceira, embora espalhada pelo corpo, era muito forte na região da planta dos pés; novamente retornei ao pronto atendimento e a medicação inicial, na opinião do plantonista, precisava ser por mais tempo.

Mais uma semana se passava e novamente durante a semana a coceira cedia até que no final de semana voltava a se intensificar. A essa altura comecei a nutrir uma expectativa de que algo em minha alimentação estava errado. Durante a semana por me alimentar em restaurantes e, mesmo em casa, manter um padrão mais básico, a coceira amenizava, enquanto que, durante o fim de semana talvez estivesse abusando de algum alimento e com isso comecei a reduzir certos alimentos que pudessem estar de algum modo gerando a tal alergia.

Havia se passado um mês e percebi que com as tais alterações, redução de alimentos com farinha branca, exclusão do café, carnes, meu peso estava diminuindo, havia reduzido mais de um quilograma, mas continuava a haver incômodos. O mês de fevereiro já estava no fim, meu aniversario chegara e não havia em mim qualquer vontade de sair para jantar ou comemorar como se um cansaço começasse a tomar conta. Março se iniciara e decidi buscar ajuda. Após procurar por profissionais em minha região e lidar com a situação de que a saúde, mesmo particular, não anda grande coisa, consegui por fim agendar para alguns depois consultas com Gastroenterologista e Cardiologista, mas àquela altura não consegui agendar consulta com Alergologista.

Marcar as consultas acabam por significar pouco ou muito pouco, pois após as consultas propriamente ditas inicia-se uma nova briga, agora com os laboratórios, alguns exames são agendados para até 45 dias, mas enfim, depois de agendados, normalmente com cinco a dez dias para obtenção dos resultados pode-se por fim reagendar os retornos para a análise do profissional. Inicialmente pensava estar com uma gastrite ou até uma úlcera.

Ainda em março duas festas em que tive a oportunidade de participar uma em que serviram crepes me alimentei de saladas e a outra com farto bufê, incluindo churrasco, novamente minha alimentação saladas, nada contra, aliás sempre comi bastante salada, mas o fato é que o incomodo ao me alimentar estava grande e meu aspecto físico já estava diferente eu já estava me sentindo debilitado. Se no início do ano em minha caminhada de fim de semana fazia 8 voltas pelo bosque, agora já não conseguia realizar seis voltas e, para dizer a verdade, começava a faltar vontade.

Chegou o dia da mentira 1º de abril, quisera. Estava me preparando para ir dormir, era umas 21:30, pois é, um pouco cedo, mas o cansaço estava chegando. Troquei de roupa e me olhei no espelho eu que nunca fui exatamente alguém bronzeado estava pálido com uma cor que não era o meu branco normal. Por via das dúvidas resolvi perguntar a alguém mais se eu, por algum acaso não estava com cor esquisita. ITS, minha esposa, ao perceber meu questionamento, olhou em meus olhos e percebeu que eu estava com o fundo dos olhos amarelo e, realmente, estava quase ictérico. Decidimos naquele momento irmos direto ao pronto atendimento.

A essa altura já havia, dias antes, retirado um pacote com exames de sangue no laboratório e havia alguns índices com alterações significativas e de posse desses exames ingressei no pronto atendimento do HSC.

Diante do histórico mencionado, a observação da técnica de enfermagem na triagem fui rapidamente encaminhado à médica clínica geral que, diante dos dados presentes nos exames de sangue apresentados, rapidamente solicitou em caráter de urgência novos exames de sangue e o exame de imagem, a tomografia. Ainda não era meia noite e fomos chamados para ouvir o diagnóstico. A tomografia não estava laudada, mas já era possível confirmar que havia um tumor na cabeça do Pâncreas.

A imagem demonstrava que principalmente o Pâncreas estava acometido, juntamente com o duodeno e o canal biliar. As coisas começavam a se encaixar em termos de sintomas. O canal biliar já estava bastante pressionado e com isso a sensação de gastrite e outros sintomas se justificavam. Até mesmo aquela suposta alergia encontrava explicação na tal imagem e a essa altura a médica já nos explicava que o caso era grave, cirúrgico e a internação imediata.

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas como o aconselhamento em transição de carreira.

Este post tem 3 comentários

  1. Maria+Alice+Aguiar

    Apesar da triste história, a leitura é deliciosa. E espero o final feliz

    1. Psicólogo Altair Oliveira

      Acredito que se tratarmos as coisas sem perdermos a noção da realidade podemos perceber e sentir a tristeza, mas sem tornar o drama maior que a própria dor causada pela doença.

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