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Ansiedade, Expectativa e a Temida Quimioterapia – parte 1

A consulta com o oncologista foi bastante tranquila e esclarecedora. Saber que no meu caso a quimioterapia seria mais branda e que as reações mais conhecidas e temidas eu provavelmente, não as teria, já era um pouco mais consoladora e que eu não precisaria realizar nenhuma internação para a realização da sessão também me aliviava.

Duas semanas depois da última intervenção realizada entre o fim do mês de abril e o início do mês de maio estava agendada a primeira sessão de quimioterapia. O ambiente, apesar de ser em um hospital, estava bastante tranquilo e os profissionais que me atenderam ajudavam a tornar o ambiente bastante agradável e familiar.

Meu tratamento, conforme o protocolo da ANS, consistiria de 6 ciclos compostos por 3 sessões de infusão do quimioterápico, uma vez por semana, a cada dia a ingestão de 6 comprimidos, ou seja, uma parte da quimioterapia é realizada em casa, sempre após as refeições e na quarta semana folga. Após o terceiro ciclo faz-se o Pet Scan a fim verificar o andamento e, eventualmente, realizar algum ajuste na conduta.

À época de minhas suspeitas de que algo estava errado comigo, janeiro de 2018, meu peso estava na casa dos 72 Kg, ao final do mês de abril encerradas as internações e intervenções cirúrgicas meu peso estava na casa dos 62 Kg, assim o primeiro ciclo do quimioterápico se iniciou quando eu estava com mais ou menos esse peso, talvez 1 Kg a menos.

enfrentando o cancer com acompanhamento psicologo

O primeiro ciclo.

Após explicações às mais diversas a respeito do tratamento, realizadas por cada uma das profissionais que se apresentaram (farmacêutica, psicóloga, assistente social, enfermeira, nutricionista), com suas explicações, sugestões e orientações chegou enfim a medicação.

A chegada da medicação (preparado quimioterápico) marca o inicio do procedimento, primeiro a limpeza da pele, a perfuração do cateter e a instalação da conexão que permite a entrada da medicação, a infusão do medicamento de proteção do estomago e, por fim a infusão da Gemcitabina o quimioterápico propriamente dito.

A infusão do quimioterápico demorou cerca de 30 minutos e após a preparação, isto é, limpeza do cateter, remoção das bandagens de fixação, tomada dos sinais vitais, tudo certo, ou seja, até a próxima. Opa! Uma parte significativa da quimioterapia se dá em casa no cotidiano.

No mesmo dia após o almoço os 3 comprimidos Capecitabina ou Xeloda e idem, após o jantar, exceto alguns momentos em que parece que não bebi água por horas, não percebi nenhum tipo de sintomatologia ou reação mais desagradável.

Se durante a tarde até me ocupei com as minhas atividades cotidianas de trabalho, a noite pude perceber mudanças. A começar pela insônia que apareceu e me manteve por, ao menos, umas duas horas acordado. Por vezes acordando com sede e por vezes sendo obrigado a levantar para urinar.

No dia seguinte já podia perceber outras alterações. Dificuldade em evacuar e, posterior, a esse momento em que havia dificuldade a situação foi ao oposto precisava ir ao banheiro várias vezes, às vezes, seguidas e com grande ardência e a sensação de que a região estava sendo queimada a cada evacuação. Uma mistura de desconforto e dor se formava. Houve momentos em que cheguei a chorar sentado tamanho o desconforto nesse ato tão cotidiano e necessário.

No domingo, isto é, dois depois foi possível sentir o trator quimioterápico passando sobre mim. Nenhuma vontade de fazer coisa alguma. Cansaço, moleza e até um pouco de febre durante o início da noite que oscilou um pouco até ceder completamente.

As primeiras sessões do primeiro ciclo foram marcadas por esse comportamento e pude aprender de algum modo a lidar com o gerenciamento da dor. Por vezes o mal-estar se iniciava e sem me dar conta dele crescia e se transformava em dor e grande desconforto. Portanto, lidar com ele significava medicar-me e me dar algum conforto e poder de escolher, e, nesse caso, escolher o conforto ou o menor desconforto possível.

Algo que também chamou minha atenção foi o fato de em alguns momentos uma depressividade surgir quase do nada, crescer e até tomar conta da volição e levá-la completamente. Nas primeiras vezes cedi e fiquei encolhido no sofá, debaixo do cobertor e aos poucos me dei conta de que podia ir contra e mudar esse estado. Não foi e não é fácil, mas é possível questionar de onde vem e perceber que não é meu, portanto dar a volta para um estado de melhor condição.

O primeiro ciclo se foi e permitiu supor que tal e qual tantas outras pessoas que estão sendo submetidas ao tratamento quimioterápico, é possível dar conta e superar cada reação adversa que surgir. O primeiro ciclo se encerrou mais ou menos dentro do normal e com muito aprendizado.

Segundo ciclo.

Após uma semana de descanso das medicações, confesso o alívio foi pouco, apenas lá pelo 5 dia eu comecei a perceber que algumas sintomas e reações devidas ao quimioterápico estavam diminuindo, mas enfim chega a hora de reiniciar.

A primeira coisa a fazer é passar pelo laboratório e fazer a coleta para o Hemograma completo. A coisa começa a ficar tão normalizada que, agora, já não penso mais que vou ao laboratório realizar a coleta para exames digo a mim mesmo, amanhã vou tomar meu café expresso com leite e um pão de queijo naquela unidade do laboratório DA e aproveito para realizar exames.

No mesmo dia informo o protocolo de retirada e o meu peso à enfermeira que acompanha o meu tratamento e, se tudo estiver dentro dos conformes com os Eritrócitos e Hematócritos, é autorizada a infusão e com isso o processo é mais rápido, diferentemente de outros locais em que o paciente chega apresenta os resultados dos exames faz a pesagem e só então é solicitada a medicação tomando muito mais tempo do paciente.

O segundo ciclo trouxe um componente possivelmente esperado, mas desagradável. Certa noite ao acordar para beber água e ir ao banheiro senti dificuldade de tocar o chão até o espaço entre as cerâmicas do piso causavam algum incomodo. As pontas dos meus dedos das mãos idem, estavam muito avermelhados e sensíveis e já sentia alguma dificuldade em realizar certos atos comuns no dia-a-dia como, por exemplo, abotoar os botões da camisa, separar a chave e colocar na fechadura e movê-la para abrir ou fechar, mas ainda era possível realiza-los.

A chegada dessa nova reação não significou o desaparecimento daqueles já conhecidos ao contrário alguns retornam até mais intensos. Percebi também que minha pele estava mais fina assim como os cabelos e os pelos da barba.

Os exames posteriores à primeira semana se mostravam em ordem, os da segunda semana, no entanto demonstravam maior perda daqueles indicadores de imunidade e isso impediu que se realizasse a infusão da terceira semana do segundo ciclo.

Muito embora pareça até bom não realizar a sessão isso também indica que o teu corpo está enfraquecido e tomar posse dessa impotência e que isso não está sob seu controle é no mínimo desagradável e de algum modo fisicamente estava se tornando mais debilitado.

Claro que sob outro aspecto, o fato de não realizar a quimioterapia também significa que os profissionais que me acompanham estão atentos e não simplesmente seguindo a aplicação das medicações.

Minha opção desde o início foi o de realizar minhas infusões às sextas-feiras e assim ter o fim de semana para descansar e recuperar física e psicologicamente, para realizar a infusão na segunda-feira, preciso antes tomar meu café fora de casa e realizar os exames, é impressionante, não sei se é uma característica minha, mas dois dias faz grande diferença nos índices de minha imunidade, mas percebo que algumas reações se agravam no decorrer da semana, quando normalmente já estão sendo reduzidos pela habituação e reação do corpo e isso significa que algumas das reações que surgem, normalmente n fim de semana, surgirão no meio da semana.

Nesse processo também se inicia uma batalha para compensar a perda de peso e a manutenção da imunidade. Proteína sob a forma de iogurte, proteína em pó para adicionar ao suco e outras bebidas líquidas, bifes bovinos, bife de fígado, inhame, folhas verdes, complexos vitamínicos, etc., etc.

Outros cuidados começam a ser necessários como evitar lugares muito cheios ou se necessário a utilização de máscara, evitar frutas de cascas finas, saladas fora de casa e, no meu caso qualquer comida com maior teor de gordura e por aí afora.

Um aspecto de grande importância para minha experiência em especial com o tratamento da dor foi exatamente perceber quando se inicia o desconforto e este tende a tornar-se dor. Nesses casos o melhor a fazer é a medicação através de algum analgésico e assim evitar que o simples desconforto se torne um grande problema.

Com as dificuldades recém-chegadas e as antigas cheguei ao fim do segundo ciclo.

Terceiro ciclo.

De início o comentário que, normalmente, fazemos é: dessa vez a quimioterapia está mais forte! não, não é. Ao examinarmos um pouco mais profundamente a conclusão é que o corpo está mais debilitado e claro, as reações do corpo aos quimioterápicos são mais intensas.

Diante da realidade adapta-se a si mesmo.

O corpo também vai se adaptando. Nesse último ciclo a ardência ao evacuar já não incomoda tanto quanto no primeiro ciclo, entretanto a sensação de dor às vezes é mais persistente. Não sei se antes a ardência era tão grande que velava a sensação de dor ou se a dor é agora mais presente, de fato, não sei.

As mãos estão mais sensíveis. Nesses últimos dias os dedos das mãos soltaram a camada de pele mais superficial e com isso algumas limitações se tornaram mais evidentes.

Algumas coisas podem ser evitadas outras adaptadas e assim é possível seguir sem nenhum grande drama ao menos no meu caso.

Ao longo do tratamento tenho tentado preservar minha independência, assim, aboli o uso de camisas com botões, uso camisetas e polos. Manobrar o carro, não tem muito jeito, vou mais devagar, seguro o volante com as partes menos sensíveis das mãos. Calçar um par de meias e sapatos se tornam mais difíceis, em especial no inverno por pedir meias e calçados mais fechados e espessos para enfrentar o frio, mas não chegaram no meu caso a se tornar impeditivos.

Devido às reações percebidas em minhas mãos, obtive, digamos que um salvo conduto, e a permissão para deixar de tomar o Xeloda por duas semanas, até o início do próximo ciclo. Julguei que com isso os efeitos da hipersensibilidade em minhas mãos fossem ceder em alguns poucos dias,

no entanto isso não tem ocorrido, aliás com o efeito do frio parecem, na verdade, estar mais sensíveis e em alguns momentos, as pontas dos dedos doloridos e até uma pequena diferença de cor nas unhas.

acompanhamento oncológico - psicologia altair oliveira - Vila mariana

Nem tudo são pedras no caminho.

Ao saber do câncer fui também informado, pelo serviço de Assistência Social, que pacientes oncológicos tem certos direitos e dentre eles a isenção da obrigatoriedade do rodizio de veículos, o que em minha opinião, que nos libera para sermos mais independentes e permite que em caso de emergências nos libere de certas preocupações, além do que, para quem tenta trabalhar e desenvolver a vida dentro da normalidade, liberta do Estado e da dependência de aposentadoria e bolsas e etc.

O fato é que ao solicitar a isenção no posto do serviço de trânsito da capital, após entrar com a documentação, a atendente, uma Sra. Gentil e simpática, questionou-me se eu havia mantido cópia do laudo médico que atestava minha situação, ao responder que sim ela me entregou pequeno texto informando como deveria proceder caso fosse multado. Curioso perguntei a partir de quando meu pedido seria processado e validado ao que ela me respondeu que estavam atrasados e demoraria cerca de 4 meses. Isso me deixou ainda mais curioso. Ora, se o pedido só é validado quando devidamente registrado no sistema e isto demora cerca de 4 meses, por que então me informar como deveria recorrer em caso de haver alguma multa? No meu entendimento antes de ter validado e deferido o pedido a responsabilidade por qualquer infração é minha. Achei engraçada a situação.

Se você, de certa forma, consegue enxergar-se ou a algum ente querido nestas situações, saiba que um acompanhamento psicológico profissional pode ajudar neste momento delicado.

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas como o aconselhamento em transição de carreira.

Este post tem 4 comentários

  1. Juliana Maggi Lima

    Altair, meu amigo. Depois e tantos anos, acho que posso te chamar assim. Você é um vencedor. Fiquei muito feliz em te ver hoje!
    Em breve, você estará 1000%.
    Nos acompanhamos, à distância, e de perto, já já alguns anos.
    Você é sensacional e ler seus relatos foi muito interessante e enriquecedor.
    Seus pacientes têm sorte de te ter na vida deles

    1. Psicólogo Altair Oliveira

      Jú,
      Grato pelas palavras de carinho.

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