Ansiedade, expectativa e a temida quimioterapia Parte II

Ansiedade, expectativa e a temida quimioterapia Parte II

A possibilidade de um novo tratamento

Novo protocolo

Estava na segunda semana do terceiro ciclo quando fui, por intermédio de uma amiga, colega de trabalho de uma médica conceituada e especializada no tratamento Oncológico do trato gástrico, meu caso – GDP, convidado para uma consulta e, eventualmente, poderíamos rever o protocolo em uso no meu caso e assim diminuir os efeitos colaterais indesejados.

Ela, sem dúvida alguma da maior competência e recém-chegada do Congresso Internacional de Oncologia, ocorrido nesse ano em Chicago, no qual o público superou 40000 participantes, e reuniu as maiores feras relacionadas ao tema. Durante a consulta com a especialista recebi explicações a respeito do protocolo em uso no meu caso, e esclarecimentos a respeito do novo protocolo já validado pela ANS desde junho/18, bem como todas as estatísticas de cura para ambos os protocolos.

Lembrando, meu tratamento quimioterápico foi iniciado em 18 maio e assim, não é uma questão de um tratamento estar adequado ou não, pode ser que fosse esse, se iniciado após junho e não o anterior.

Diante dessa nova possibilidade a questão principal, para mim, não era uma simples questão estatística, mas o que mais me tomava eram as reações adversas provenientes da quimioterapia e que me causam grande desconforto.

A decisão, evidentemente, se mudaria ou não o protocolo do tratamento não seria unilateral do médico Oncologista que me acompanha, mas partiu de uma boa conversa comigo, no qual alguns aspectos que para mim ficaram muito evidentes, foram: reinício do ponto zero ignorando os três ciclos já praticamente fechados, e; possivelmente eu teria perda de apetite, azia e ânsia de vômito; se, me alimentando relativamente bem, não tenho conseguido ganhar peso, como seria se houvesse prejuízos decorrentes da perda de apetite?

Em conclusão à questão a respeito de mudar ou não foi a de seguirmos com o protocolo já iniciado e diante de novos exames no fim do período, caso surja algo que peça, inicia-se o novo tratamento.

Definida a situação optou-se ainda por ajustes na conduta terapêutica. O primeiro ajuste foi um pequeno período de férias de duas semanas dos comprimidos, Quimioterapia realizada em casa, e; outro ajuste importante foi a redução de 6 para 5 comprimidos diários.

Acreditei que após duas semanas de descanso do Capecitabina a hipersensibilidade percebida nas mãos, dedos das mãos e nos pés seriam minimizados a ponto de desaparecerem, mas não foi isso o que ocorreu, os sinais ficaram muito similares. Outros sintomas como o número de idas ao banheiro também se mantiveram, porém com menor ardência.

Quarto ciclo

Nas semanas que sucederam fui percebendo redução nos sintomas e concluindo que a redução dos comprimidos foi bastante acertada. Percebi entre a segunda e a terceira semana do quarto ciclo, que tive menos dor e ardência, os efeitos da hipersensibilidade nas mãos, dedos e pés foram bastante minimizados e tornando mais confortável o cotidiano.

Até agora precisei adiar a terceira sessão de cada ciclo porque minha imunidade estava baixa e, portanto, inadequada para a sessão de quimioterapia, mas dessa vez não. Meus níveis estavam razoáveis e foi permitido realizar a sessão.

No dia seguinte pude perceber que a hipersensibilidade nos pés e nas mãos havia voltado, contudo criava dificuldade para tocar o chão e o objetos com as mãos. Felizmente tais sintomas recuaram nos dias que se sucederam e chegaram a situação de menor desconforto possibilitando levar o cotidiano dentro da normalidade possível.

Algo que para mim é de grande importância é o fato de que nas últimas duas semanas não precisei utilizar de analgésicos. Isto é libertador. Não sei se meu corpo está num processo de maturação pós-cirúrgico ou mesmo no suporte e tolerância às medicações quimioterápicas.

Quinto ciclo

O quinto ciclo se mostrou bastante semelhante ao anterior, isto é, com redução de sintomas. Pude comemorar uma pequena vitória que foi não mais precisar de analgésicos. Raramente tive episódios de dores de modo geral e, talvez esse seja o real motivo dessa vitória é como se esse dado me dissesse ‘o tratamento está seguindo seu curso e em breve estarei livre’.

A hipersensibilidade também tem diminuído e os movimentos dos dedos e mãos tem ficado mais próximo da normalidade.

Há, entretanto, alguns aspectos que parecem tomar mais atenção. Estou me referindo ao fato de que nas noites que seguem à sessão de quimioterapia não consigo dormir por muito tempo. Notei que em algumas vezes mesmo indo dormir com sono basta deitar para o sono ir embora. Apesar de demorar a pegar no sono, após uma ou duas horas vem a necessidade de beber água ou urinar e aí lá se vai o sono. Mais algumas horas até novamente conseguir dormir novamente.

Algo novo que tenho percebido nas últimas semanas é que tenho tido, durante minhas refeições principais, a necessidade de comer mais para me sentir satisfeito, é como se precisasse preencher um espaço vago e, enquanto não o preencher não há a saciedade. No momento isto pode ainda ser de algum modo positivo, é uma necessidade patente manter a alimentação em alta no intuito de suportar a quimioterapia.

É também importante ressaltar que nenhum aspecto é ou deve ser visto de modo isolado, portanto preciso tentar levar em consideração os demais aspectos do meu momento, isto é, tratamento, recuperação, cicatrização pós-cirúrgica, restauração da sensibilidade local, consultório e tudo o mais.

Chegando ao fim do quinto ciclo, isto é, nessa última semana e, claro, posterior à minha última sessão de quimioterapia, presença de diarreia e ao consultar-me com meu oncologista, aparentemente por efeito da medicação.

Outro acontecimento importante posterior a essa última sessão, que atribuo ao fato de que na terceira semana a imunidade está no nível mais baixo em relação às duas anteriores, é que surgiu uma pequena inflamação em um dos olhos, nada de sério, mas que precisa ser cuidado e nesse sentido, vale pensar que em muitas situações devemos fazer uso de máscaras e até evitar certos locais em que poderia facilitar o contato com contaminantes.

Sexto e último ciclo

Percebi durante esse ciclo, que os comprimidos, Xeloda, de fabricantes diferentes aumentam algumas das reações adversas, por exemplo, a sensibilidade nos dedos, o esbranquiçado nas unhas e nos pés. Nada de muito significativo, apenas um pouco mais sensível.

Outra reação que também percebi é que o sono fica mais alterado, com menos tempo de sono profundo e em consequência, claro, menos descanso. Se antes a insônia se dava mais na noite sequente ao da infusão (endovenosa), percebo que a insônia se apresenta em mais noites, às vezes, por até três noites subsequentes.

É provável que no segundo e terceiro ciclo as reações que notei tenham sido ampliadas em função, não só pela quantidade, mas também pela marca do medicamento, pois em ambos os casos eu estava utilizando o medicamento genérico.

Estas são as impressões diante das reações que experimentei comigo mesmo, evidentemente que há outras muitas variáveis que poderiam contribuir para compreensões diferentes, por exemplo, o acúmulo das medicações no organismo.

Até mesmo o fato de estar me aproximando do fim dessa etapa do tratamento e o aumento da minha ansiedade em relação a isso pode estar contribuindo com, ao menos, a insônia.

Aquela pequena inflamação, inicialmente, um Tersol evoluiu e se tornou Conjuntivite e, tomou mais tempo que o seria mais normal para atingir a cura. Alguns tipos de colírios foram utilizados para o tratamento e, até agora, véspera da realização de minha última sessão de quimioterapia, resta ainda parte dos sintomas da conjuntivite.

Minha última sessão de quimioterapia endovenosa foi no dia 22/10 e meus últimos comprimidos no dia 29/10, mas notei que alguns dias após o fim dos comprimidos a sensibilidade em minhas mãos foram muito similares a aos dias que sucediam a sessão de quimioterapia EV (endovenosa).

Fim de mais uma etapa

O fim do tratamento quimioterápico marca esse momento como o fim dessa etapa. Foram seis ciclos, portanto, seis meses com momentos de grandes dificuldades em relação a medicação e efeitos colaterais que somados ao pós-cirúrgico marcaram, especialmente os três primeiros ciclos, mas o tempo foi passando e fui descobrindo que o tratamento era suportável, não fácil, mas enfim, o tempo foi passando e o tratamento concluído.

A essa altura só o que posso fazer é agradecer por todo o carinho, orações, paciência e todo afeto e paciência que recebi dos meus familiares (não é muito fácil conviver e, às vezes sem haver como ajudar), meus colegas de trabalho nas empresas para as quais presto serviços, à enfermeira que participou de todo o tratamento quimioterápico, bem como os demais profissionais de suporte e apoio (Nutricionista, Psicóloga, Assistente Social) e meu médico Oncologista. Minha gratidão a todos.

Minha gratidão também a você que decidiu ler esse texto e, caso conheça ou tenha alguém próximo que possa se interessar por esse relato com a quimioterapia, por favor indique a leitura.

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas.

Este post tem 3 comentários

  1. A compreensão e o compartilhamento do que nos aflige, torna nos capazes de conviver melhor com as limitações impostas além de suavizar nosso sofrimento ! Parabéns pelo relato !

    1. Oi Seba, acredito nisso também. De certo modo saber que o outro também sofre ou que também temos, cada um a seu modo, nossos sofrimentos e aflições nos aproxima e isto é também ser Humano.
      Grato pelo tempo de leitura e carinho.

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Chris Ivory Jersey 
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