A psicologia e os atendimentos on-line

A psicologia e os atendimentos on-line

É inegável que a tecnologia, em especial a Internet, tem revolucionado todas áreas do conhecimento e de modo bastante democrático, sem distinções de classes sociais. Mas em muitos casos a tecnologia traz em seu bojo alguns problemas e novas necessidades que com o tempo se ajustam.

Quem já não ouviu falar de situações em que alguém deu uma topada em algo ou simplesmente esbarrou em alguém, por estar de tal modo envolvido com o celular trocando mensagens ou assistindo a algo que perdeu completamente a noção do tempo presente e, por conseguinte, a noção da própria espacialidade a ponto de chocar-se com algo ou alguém.

Mas claro a tecnologia é criada e empregada inicialmente para trazer novas possibilidades, encurtando distâncias e reduzindo barreiras, ou seja, sendo facilitadora de novas possibilidades.

E, nesse sentido a própria psicologia também pode e deve se modernizar revendo seus conceitos, seus pré-conceitos, e permitir com que mais e mais pessoas se beneficiem do que estes saberes podem e devem fazer utilizando para isso os novos caminhos propiciados pela tecnologia.

A Resolução CFP nº 11/2018, recém-publicada e em vigor desde 14/11/2018, chega para substituir a de nº 11/2012, em ambos os casos elas regulam os serviços psicológicos que utilizam para sua realização os meios tecnológicos de comunicação à distância.

A necessidade de rever a resolução anterior e sua reformulação é uma demanda já antiga da categoria que percebe que os serviços podem ou poderiam ser melhor prestados através da utilização dos novos meios, bem como a expansão dos serviços psicológicos, por vezes limitados pela antiga resolução de 2012.

O que mudou?

  • A antiga resolução permitia no máximo 20 encontros ou contatos virtuais. A nova não limita mais o número de sessões;
  • A nova resolução derrubou o impedimento categórico à realização de atendimentos em caráter de psicoterapia;
  • Processos de seleção pessoal, antes limitados a apenas partes do processo;
  • Para a realização de instrumentos de testes foi acrescentado a necessidade de que estes estejam devidamente ajustados para o favorecimento do seu uso sob o meio tecnológico, parecer este sob responsabilidade do SATEPSI (Sistema de Avaliação de Instrumentos Psicológicos, com a devida padronização e especificação;
  • Supervisão técnica, antes prescritos e restritos ao ambiente de formação profissional e apenas de modo presencial, agora podem ser disponibilizados e permitidos nos mais diversos contextos;
  • A resolução chama a atenção de todos nós, profissionais da área, para o fato de que isso não nos permite, no entanto, desrespeitar as demais especificidades de adequação dos instrumentos de pesquisas bem como as necessidades de registro de atendimentos e todas as demais resoluções éticas do código de ética.
  • Tomando especialmente a questão ética no tocante ao atendimento a crianças e adolescentes tais atendimentos, utilizando os meios tecnológicos, somente pode ocorrer mediante ao consentimento explicito e expresso de ao menos um dos responsáveis legais e, claro, mediante a viabilidade técnica por parte do profissional da psicologia;
  • É claro que nem tudo é possível de ser realizado pelos meios de comunicação tecnológicos e desse modo a nova resolução impede que atendimentos a grupos de pessoas em situação de emergência e desastres, considerando nesses casos inadequados e, portanto, devendo ser realizados de modo presencial;
  • De modo semelhante, isto é, devendo os serviços serem prestados de modo presencial os atendimentos a pessoas em situação de violação dos direitos ou em situação de violência.

O fato é que a partir da publicação da referida resolução podemos oferecer nossos serviços de consultoria ou atendimentos psicológicos dos mais diferentes tipos utilizando os meios de comunicação.

Quais os prós e contras aos atendimentos psicológicos realizados on-line?

Opção para áreas remotas ou de difícil acesso

A tecnologia da comunicação pode alcançar áreas remotas e de difícil acesso, portanto, para aqueles residentes em áreas distantes o uso dessas tecnologias pode ser a solução tornando o acesso aos serviços, não somente da psicologia, acessíveis.

Também para aquelas pessoas que decidiram realizar mudanças de local, sejam, de bairros, de cidade ou de país, podem se beneficiar da tecnologia para continuar a serem atendidos pelos profissionais de escolha e que já os atendiam quando eram fisicamente acessíveis, assim não perdem o vínculo por estarem distantes.

Acessibilidade para quem tem algum tipo de limitação

Se para quem não tem nenhum tipo de dificuldade de mobilidade a vida já não é fácil, para aqueles que têm algum tipo de dificuldade e estão de algum modo presos então, a coisa se torna muito mais difícil. Especialmente para estes cuja mobilidade, é uma questão os atendimentos on-line podem ser a solução.

É preciso, no entanto, pesar com adequação se as questões são ligadas a mobilidade, perfeito! Mas se as questões forem relacionadas a algumas psicopatologias, os atendimentos on-line podem não ser a solução.

Conveniente e acessível

A conveniência dos atendimentos pelos meios tecnológicos é inegável uma vez que pode ser realizada de onde você estiver, seja no teu ambiente doméstico ou do trabalho.

Os convênios médicos autorizam certo número de sessões, de acordo com a ANS no mínimo 18, mas deve ser verificado no ROL de procedimentos e, embora o tema esteja sendo bastante discutido, as operadoras não poderiam limitar o numero de sessões, mas é necessário verificar junto a sua operadora e o previsto no ROL da ANS.

No ato em que escrevi este texto não localizei informações pertinentes aos atendimentos on-line e, pode significar que as operadoras ainda não tenham definidas as regras para tais atendimentos.

Atendimentos on-line e a produção de informações mais fáceis

A Internet pode produzir acesso à saúde mental mais fácil e acessível. Pessoas poderão se sentir mais confortáveis em utilizar os serviços de psicologia e, nesse nexo, tornar mais próxima a discussão a respeito do tema da saúde mental e como consequência direta a redução dos preconceitos relacionados.

Ferramenta de educação

Na medida em que o acesso à saúde psicológica se torna acessível o usuário do serviço aprende a respeito de si mesmo e de seus comportamentos e desse modo também se torna mais forte.

Operadoras de saúde

O assunto, atendimento on-line, para os psicólogos não é algo recente, entretanto as operadoras de saúde precisam e precisarão de algum tempo para se ajustarem e nessa medida podem não aceitar, ainda que temporariamente, os atendimentos on-line.

Preocupações a respeito da confidencialidade, privacidade e a segurança da tecnologia

O uso dos meios tecnológicos não exime o profissional da psicologia a abrir mão das questões éticas definidas pelos CRP´s (Conselho Regional de Psicologia) que determinam, por exemplo, a guarda de documentos como prontuários, sejam estes por meios eletrônicos ou físicos. Aliás, deve ficar claro que apenas o meio está sendo alterado, isto é, ao invés de presencial in-loco está se tornando presencial virtual.

Assim o que pode inviabilizar os atendimentos on-line pode ser justamente a forma como o profissional liga com as questões mencionadas no parágrafo anterior. Portanto, pesquise a respeito do profissional antes de decidir por quem e o meio pelo qual deseja optar.

Resposta a situações de crise

A resolução que define e autoriza os atendimentos on-line por si só já menciona que determinadas situações não podem ser atendidas de modo on-line e a estas se juntam situações de crise, por exemplo, em situações de alguém experienciando pensamentos suicidas. Em situação de crise o profissional pode não ter condição ou se tornar de difícil o manejo da situação.

Não é apropriado para psicopatologias mais sérias

Determinadas doenças ou psicopatologias exigem certa aproximação com o paciente e os atendimentos remotos tornam-se para estas situações um fator de dificuldade ou de empobrecimento do tratamento e devem ser pesadas adequadamente, o que não significa que parte dos atendimentos até possam ser on-line, mas não necessariamente todo o tratamento.

Perda de informações do ambiente e respostas corporais

Durante os atendimentos on-line, na maior parte do tempo o foco está no rosto e a comunicação se dá também no restante do corpo, porém o restante do corpo não está acessível, uma vez que o foco está, quando muito, nas expressões faciais. O restante do corpo contribui e muito para que o profissional construa um quadro mais rico da situação do entrevistado, isso sem contar é claro daqueles problemas comuns da comunicação pela Internet como possíveis interrupções, robotização da voz, dentre outros.

Preocupações ligadas às questões ética e legais

Os atendimentos mediados pela tecnologia da informação e comunicação não desobrigam o profissional da psicologia a ser menos ético ou a descumprir quaisquer regulamentos pertinentes à conduta mencionada pelo respectivo código de ética, ao contrário, o fato de ser de remoto, em minha opinião, exige ainda mais do profissional.

Se você está por se decidir se fará algum tratamento psicológico, seja para algo pontual ou mesmo um processo psicoterapêutico de maior duração e, independentemente, do meio pelo qual fará o tratamento, se on-line ou presencial, tenha em mente que, como em qualquer outra profissão, existem bons profissionais, mas também maus profissionais e; nesse sentido cabe pesquisar se não existe processos éticos contra o profissional, o que pode ser pesquisado diretamente junto ao CRP e conhecê-lo pessoalmente numa entrevista inicial e assim testar a sua empatia para com o profissional.

O presente texto foi escrito com base na Resolução CFP nº11/2018 que atualiza a resolução 11/2012, cujo vigor se inicia em 14/11 de 2018 e o artigo pulicado por Kendra Cherry, sob o nome de Advantages and Disadvantages of Online Therapy, publicado e disponibilizado através do endereço em https://www.verywellmind.com/advantages-and-disadvantages-of-online-therapy-2795225?utm_campaign=list_stress&utm_medium=email&utm_source=cn_nl&utm_content=15072049&utm_term=

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas.

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Chris Ivory Jersey 
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