A angústia que antecede o natal

A angústia que antecede o natal

Que ano!?

Quantas surpresas?

Sem importar de que área falar, as surpresas realmente foram e estão sendo muitas.

Quem poderia, com um mínimo de certeza, afirmar que a campeã de futebol da copa da FIFA de 2014, sairia ainda na primeira fase da competição em 2018?

No campo da política interna, que candidatos ao senado, governador e até deputados que eram dados como certos e que ganhariam em seus pleitos nas eleições, ocorridas em setembro deste ano, ficariam para trás de modo tão contundente?

No campo da política externa – que a França passaria dias sob protestos pelos preços dos combustíveis, fenômeno similar ao ocorrido por aqui, iniciada em 21 de maio de 2018, com pautas variadas e tendo inclusive que voltar atrás?

Mencionei apenas duas áreas com informações de domínio público, mas no meu caso, por exemplo, as surpresas se iniciaram já no mês de janeiro e foram pipocando no decorrer do ano, felizmente com saldo ainda bastante positivo.

Notei em alguns círculos de amizades que o ano foi igualmente de muitas surpresas, mas claro, nesse caso devo colocar algum filtro, afinal posso estar contaminado pelo meu próprio olhar.

O fato é que estamos a poucas semanas do fim do ano, e nesse período que antecede as festas de natal e ano novo, é bastante comum que façamos um balanço entre aquelas metas, escritas, ou não, e perdidas em alguma gaveta e não mais levadas em conta e aquilo que, de fato, foi realizado não necessariamente corresponde ao imaginado.

Desse balanço, por vezes, o saldo é a culpa de ter escapado para o mundo e não ter levado a cabo os projetos mais autênticos e colocados sob o enfoque de metas de início de ano. Sim, aquele curso de língua estrangeira, aquela especialização, a reeducação alimentar e todo tipo de objetivos que eram importantes, mas que se tornaram apenas desejos distantes.

Parece até que nessa época, esses dias que antecedem, especialmente, o natal, as metas saem da gaveta para nos afrontar, nos angustiar, mostrando-nos que não demos conta daquilo que nós mesmos definimos essenciais e desse modo inautêntico caminhamos para o encerramento de mais um período.

Sim, é desse misto de sentimentos que o convido a olhar e que quero me aproximar.

Muitas pessoas, com a chegada dessa época, sem se darem conta do que estão passando intimamente, apenas afirmam que não gostam, ou ainda, que por motivos os mais diversos, às vezes,  relacionam com a data religiosa, se dizem angustiadas e até depressivas (cabe ressaltar a tonalidade afetiva do medo – tratada em texto anterior); tenho certeza de que para muitos a relação com a data, ao invés, da festa, é de fato a saudade pela ausência de entes que já se foram,  mas para muitos outros esse misto de sentimentos está muito mais centrado naquilo que não fez, ou seja, na culpa.

Embora o período seja festivo, o que passa a ser vivido é um ar de estranhamento, algo que é colocado como um período feliz, por vezes irreal, e que se você não estiver feliz, você é um ser de outro planeta e, portanto, não faça contato com os seus sentimentos mais profundos; esse estranhamento a que me referi tem um misto de arrependimento, angústia, culpa e até, de medo.

Para Heidegger (filósofo e autor de Ser e tempo (1889-1976)), medo e angústia estão fundamentalmente interligadas em uma temporalização própria, com origens diferentes. A angústia surge a partir da decisão, do vir-a-ser, enquanto que o medo, da atualidade perdida. E a esse respeito complementa o autor “… medrosamente, tem medo do medo, para então nele recair.”

Arrependimento, angústia, culpa e medo

Arrependimento e culpa de certo modo caminham juntas. O arrependimento surge quando, após decidido por um certo caminho ou projeto, este é modificado por uma nova decisão que o leva a uma direção contrária;

A culpa tem em sua origem o mesmo sentido de débito, assim, essa surge como um sentimento de estar devendo, que pode ser a si mesmo, à sua essência;

O medo surge da possibilidade do aniquilamento, do não mais existir, aquilo que se teme normalmente é levado a ser sentido como o fim da própria existência;

Na angústia há a possibilidade do vir a ser autêntico, a partir da sua decisão.

Como podemos perceber alguns desses sentimentos, têm, por vezes, uma única origem. Retomemos àquelas metas pensadas, escritas e depositadas em alguma gaveta. Alguém que tenha se proposto a realizar um projeto de reeducação alimentar, por exemplo.

Em algum momento, possivelmente no fim do período dos festejos, surgiu o desejo autêntico de reeducação, eventualmente, mas não só com objetivo de redução do peso e melhoria de aspectos ligados ao cuidado com saúde.

No projeto, na decisão está a angústia que se abre como possibilidade autêntica do cuidado com a saúde e do existir saudável, daí o projeto, o vir a ser saudável como possibilidade.

Começo a dieta amanhã! E assim o tempo foi passando e ao invés de trabalhar para obter os benefícios do cuidado com a saúde, esta deu lugar, já no fim de mais período anual, ao arrependimento e a culpa.

Arrependimento por haver tomando uma decisão e ao mesmo tempo ter seguido em caminho oposto, nesse caso ter deixado de seguir o projeto. Enquanto que a culpa surge por essa sensação de estar devendo a si mesmo, isto é, não fez o que se comprometeu a fazer.

Nessa mistura e confusão de sentimentos o medo, que compartilha sua origem com a com angústia, surge quase como uma consequência de possibilidade do não mais existir, afinal o cuidado originado no projeto do autocuidado foi decaído.

Há saída?

Sim, há.

A alternativa é rever seus sentimentos, separar e compreender quais projetos foram deixados de lado, reavaliar em que medida os retomar, e com mais maturidade e não menos importante – perdoar-se – dando-se o direito de recomeçar mais um ciclo com todas as possibilidades autênticas e inautênticas.

Psicólogo Altair Oliveira

Graduado pela universidade Paulista - UNIP, é pós-graduado especialista em Psicologia Clínica, pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa casa de Misericórdia de São Paulo, com atuação em consultório particular voltado ao tratamento e acompanhamentos psicológicos e psicoterapia, acompanhamento psico-oncológico, depressão, síndrome do pânico e outras demandas psicológicas.

Este post tem 2 comentários

  1. Altair, tudo bem? Muito bom o texto e eu que sou um leigo elevado a décima potencia em psicologia tenho a mesma opinião (mesmo respeitando cada pessoa e seu motivo para não curtir ou gostar dessa ou daquela data festiva ou religiosa) acredito que a vida nos concede muito tempo para perdoar e ser perdoados, para melhorar ou mesmo mudar de opinião e principalmente para nós humanos nos entender um pouquinho a cada dia, ou mês ou ano; e essas datas como Pascoa ou Natal ajudam nesse entendimento. Um abraço de um cara que te conhece a muito pouco tempo mas que te
    considera como se conhecesse você a 30 ou mais anos de tanto que gosto de conversar com você e acho que em 2019 precisamos rir, trocar ideias e conversar mais. feliz 2019.

    1. Oi Guto, é isso aí! respeito independente de gostar ou não do motivo ou da data.
      Essa sensação de conhecer alguém a muito tempo vale uma discussão e um bom motivo para um encontro.
      Agradeço pelo afeto e com certeza esse ano será muito mais festivo.
      A você também um excelente 2019.

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Chris Ivory Jersey 
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